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O que é o Whitewashing e o que podemos fazer a respeito?

04.09.2016

 

Se você vive e gosta de cinema, provavelmente acompanhou a campanha do Oscar 2016 chamada "Why so White?", denunciando a ausência de atores e atrizes negros, ou de qualquer outra etnia entre os indicados. O termo "whitewashing" começou a ganhar força e hoje é o "blackface" do século 21. Você com certeza já deve ter visto filmes onde um personagem étnico foi interpretado por um ator branco, as vezes em uma reimaginação, as vezes de forma estereotipada e até mesmo ofensiva. O exemplo mais recente disso é o personagem do "Ancião" no vindouro filme do Dr. Estranho, que ao invés de um monge oriental, foi substituído por um ator branco. Ah, mas é uma mulher, então tudo bem.

 

Lembra quando a Globo fez uma novela que se passava na Índia sem nenhum indiano? Ou uma novela sobre orientais, sem atores orientais? Isso é o exemplo mais claro de whitewashing que eu posso dar. Mas, isso acaba por levantar uma pergunta que requer uma reflexão. Afinal de contas, de quem é a culpa? Por que atores não-brancos têm dificuldades de alcançar papéis de destaque no cinema? internacional? Existe um culpado?

 

De um lado, a indústria, que diz que simplesmente filmes com protagonistas brancos são mais aceitos pela audiência americana. Isso podemos constatar com o fato do americano não gostar de ler legendas, agarrando qualquer oportunidade de refilmar um filme estrangeiro com seus atores brancos, para agradar o seu público. A defesa da indústria é que eles não ligam para a cor da pele, eles entregam simplesmente o que vende mais, e enquanto a audiência optar por consumir homens brancos como protagonistas, é isso que eles vão entregar.

 

Tendo isso em mente, vamos ver o caminho inverso, da maior indústria cinematográfica do mundo, a indústria da Índia, mais conhecida como Bollywood.  Lá, o que acontece é que todos os filmes estrangeiros são refilmados com atores indianos, para agradar aquela audiência específica, da mesma forma que acontece em Hollywood. Será que podemos acusar os indianos de "brownwashing" ou eles estão simplesmente protegendo sua cultura e sua forma de fazer arte?

 

Do outro lado, estamos nós, roteiristas, detentores do poder de criar personagens ao nosso bel prazer. Nós temos a chave para mudar a situação, mas o que nós podemos fazer? A princípio a resposta pode parecer simples e óbvia, "Basta começarmos a escrever mais personagens não brancos". Vamos pensar sobre isso.

 

Em uma entrevista, George R. R. Martin, autor e criador de Game of Thrones, disse em uma entrevista onde foi questionado a respeito da clara ausência de personagens não-brancos na literatura de fantasia. "Talvez porque não existam autores de fantasia não-brancos suficiente. Eu escrevo sobre homens brancos porque sou um homem branco." De fato, aprendemos na faculdade e nos primeiros estudos sobre roteiro uma lição, ESCREVA SOBRE O QUE VOCÊ SABE. 

 

Com o tempo e a experiência, constatamos que essa lição pode ser quebrada, e, as vezes, completamente ignorada. Afinal de contas, eu não preciso ser um policial para escrever uma história sobre um policial. Pra isso existem pesquisas e consultores, para preencher as arestas técnicas e tornar a história verossímil.

 

Agora, o fato é que nós precisamos urgentemente de mais roteiristas mulheres, negros, asiáticos, indianos, indígenas, albinos, anões, etc. Precisamos enxergar o mundo por outros pontos de vista para escapar da mesmice que toma conta do cinema atual. Mas enquanto isso, existem algumas coisas que nós podemos fazer a respeito.

 

Quer deixar as coisas mais interessantes? Experimente inverter o sexo de seu antagonista e protagonista e veja o que muda na história. Ah menos que seu filme seja sobre "guerra dos sexos", a mudança não vai ter impacto nenhum sobre a sua história.

 

Ao invés de pensar que atores negros só podem fazer filmes sobre racismo, escravidão ou serventia, experimente escrever uma história naturalmente, onde o protagonista, por acaso, é negro. Você não precisa falar de racismo, nem de cultura negra, se é que isso existe. Você só precisa enxergar todas as pessoas da mesma forma, sem estereótipos. Como disse alguém muito mais sábio do que eu, "Cultura negra é cultura humana, história negra é história humana. não existe separação". Isso vale pra todo mundo.

 

A noção de que a audiência só consome um tipo de protagonista é tão absurda quanto ultrapassada. Veja um exemplo tirado dos quadrinhos, a mídia que contém os fãs mais exigentes. Quando a Marvel resolveu matar seu personagem mais querido e conhecido, Peter Parker para introduzir um novo Homem Aranha, dessa vez o jovem meio negro, meio latino Miles Morales, talvez não esperassem que a mudança desse tão certo. Miles Morales se tornou um personagem tão reconhecido quanto o próprio Parker, sendo "promovido" do universo alternativo "ultimate" da editora, para o universo oficial. E não se espante se você ver Miles encarnando o Homem Aranha em carne e osso no cinema em um futuro próximo. Em Spider-Man: Homecoming, a Marvel procura trazer atores não-brancos para o elenco principal, mas mantendo o homem branco com o protagonista, um pequeno passo na direção certa, mas como diz o ditado, não importa a velocidade que você se mova, contanto que você não pare.

 

Por isso, aí vai o meu apelo. Enquanto não temos a diversidade ideal nos meios de produção de cinema, crie a diversidade. Nós somos roteiristas e criar é o nosso trabalho. Pense fora da caixa e tente seguir por um caminho diferente. Se você quer conseguir o que ninguém consegue, é preciso fazer o que ninguém faz.

 

 

 

 

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