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3% - O lado bom e o lado ruim.

28.11.2016

 

3%, a primeira série brasileira da Netflix chegou e finalmente tive tempo para assistir os primeiros episódios. Isso não é uma crítica, apenas pensamentos que me vieram a cabeça nos três primeiros episódios.

 

Primeiramente, deve-se parabenizar a equipe que levou 3% do youtube para a Netflix. Um feito e um marco para o audiovisual brasileiro, é assim que 3% entra para a história.

 

É um alívio ver uma série nacional que não têm estampada rostos de atores de TV que os brasileiros vêem de graça todos os dias. Negros, mulheres, cadeirantes estão bem representados na série, o que trás um alívio para o conteúdo que temos hoje. Nesse ponto a série não só acerta, mas - espero eu - dita um novo modelo de produção nacional.

 

O audiovisual brasileiro ainda vive hoje o que Hollywood viveu na década de 50, a famosa Era de Ouro, época onde o cinema foi dominado pelas super estrelas. Aqui, um ator famoso carrega um filme ou uma série nas costas. Um rosto famoso no papel principal tem mais poder que o conteúdo em si e é aí que mora o problema. Quando um filme, ou um conteúdo para TV é criado apenas para que um ator famoso brilhe, o resultado é longe do que o público espera, principalmente nos dias de hoje.

 

A situação muda quando um mega player do mercado entra na jogada. O ator famoso foi substituído pela marca da Netflix, que já agrega o valor necessário para a comercialização do produto. Sem rostos mega famosos nos papéis principais - sim, inevitavelmente você vai acabar vendo alguns "globais" eventualmente - a série abre espaço para novos nomes e novos atores. 

 

Me sinto obrigado a reconhecer o quanto me alegra assistir a uma ficção científica nacional. Como todo nerd, sou fascinado pelo gênero e sempre sonhei com o dia que fosse assistir a um produto de qualidade 100% brasileiro.

 

Porém, os primeiros questionamentos vieram logo quando terminou o primeiro episódio. Tive que dar uma pausa para processar tudo aquilo antes de seguir em frente. Parei pra pensar no que havia acontecido para que eu me sentisse assim. 

Como eu disse, é bom ver rostos novos na TV, porém, sem um ator conhecido para carregar a platéia, a série depende do roteiro para criar identificação com os personagens e a trama, e é aí que 3% me perdeu.

 

Para uma trama tão ambiciosa, o roteiro não chega ao nível do conceito. Os diálogos são tão engessados que chega a ser injusto responsabilizar os atores pelos momentos de vergonha alheia que vez ou outra aparecem. Até um excelente ator vai ter dificuldades em entregar um texto engessado de forma natural. foi nessa hora que senti saudades de Cidade de Deus e Tropa de Elite, onde os personagens falavam como pessoas de verdade, a maior parte pelo menos. Talvez foi isso que faltou em 3%, uma Fátima Toledo para preparar o elenco.

 

Em alguns momentos os atores entregam o texto como uma criança recita um trabalho decorado na frente da sala de aula. A preocupação em passar informação e backstory dos personagens resulta em situações e diálogos falsos. Sempre que um desses momentos aparecia, eu era imediatamente retirado da narrativa para notar o problema, e com a repetição, isso pode se tornar cansativo. Talvez por isso tenha sido bom 3% ter sido lançada na Netflix, com todos os episódios de uma vez, porque talvez na TV a série tivesse dificuldades em reter audiência no decorrer da temporada.

 

E lógico que não podemos ignorar o que a marca Netflix representa hoje em dia, qualidade. Qualidade essa essa que não foi traduzida na tela. Não podemos ignorar que 3% é uma produção original Netflix, assim como todas as outras, por isso as comparações são justas e esperadas. O problema é que comparada com outras séries originais Netflix, a qualidade de 3% deixa MUITO a desejar.

 

A linguagem de câmera na mão pode ser chamada de "estética" no meio artístico, mas no meio de produção isso significa Restrição orçamentária. Isso foi a primeira coisa que me chamou a atenção negativamente. Estamos tão acostumados com câmera na mão que achamos natural, muitos chamam isso de "estilo filme nacional", e nem sempre como um elogio. Em alguns momentos, 3% tem um valor de produção tão baixo que parece que estamos assistindo a um reality show.

 

Outro ponto que não pude deixar escapar, foi a pobreza da produção como um todo. Para uma série que se passa em um futuro distante, os cenários e locações parecem ter saído de filmes B. A tecnologia futurista está longe de ser algo impressionante e os poucos efeitos especiais, como os wide shots da terra devastada parecem versões pré renderizadas. Esse tipo de coisa é inadmissível para um conteúdo que custou 10 milhões de Reais. Tropa de Elite foi feito com 10 milhões, para se ter uma idéia. Em termos de custo brasil de produção, é um montante considerável, digno de produção AAA. Só que, como eu disse, a produção de 3% está mais para B.

 

Pra quem está acompanhando a série Westworld na HBO, fica difícil não comparar os dois seriados. Assim como no show da HBO, 3% gasta boa parte do seu tempo mostrando os "bastidores", as pessoas responsáveis por fazer tudo acontecer, no nosso caso, o Processo. Só que o Processo, quando comparado a empresa que administra Westworld, parece aquele primo pobre. 

 

"Ah, mais Westworld custou 10 vezes mais que 3%." Sim, e é justamente nesse ponto que eu quero chegar.

 

Westworld custou 100 milhões de dólares a HBO. As séries gringas da Netflix seguem nesse mesmo padrão. The Crowns também custou 100 milhões. Então por que 3% custou "só" R$10 milhões? A menos que a Netflix venha a público responder, acredito que nunca saberemos essa resposta, mas uma coisa é certa. 3% abriu uma porteira para a produção de conteúdo nacional, fora dos padrões "globais". Mas a diferença monstruosa de orçamento poderia justificar a diferença monstruosa de qualidade? Eu particularmente acho que com 30 milhões o resultado deveria ter sido muito acima.

 

O elenco de caras novas seria refrescante, não fosse pelo texto truncado e as situações irreais. O elenco é bem fraco, com excessão de Bianca Comparato, que faz bem o seu papel. Nem mesmo o excelente João Miguel consegue entregar esse texto com naturalidade. Se você fechar os olhos assistindo 3%, a impressão que dá é que estamos assistindo a um filme dublado.

 

A série contou com uma sala de cinco roteiristas. Além do criador, Pedro Aguilera, Jotagá Crema, Cássio Koshikumo, Ivan Nakamura e Denis Nielsen também assinam o texto. Todos eles têm como 3% o ponto alto de sua carreira, pelo menos nos créditos. Uma curiosidade: Cássio Koshikumo também escreveu a série O Negócio da HBO, que sofre do mesmo diálogo truncado de novela. coincidência?

 

Os personagens são tratados como meros estereótipos, um exemplo disso é o vilãozinho Rafael, interpretado por Rodolfo Valente, um personagem tão caricato que é digno das novelas mexicanas.

 

Apesar de todas as minhas críticas, ainda considero 3% digna de ser assistida e debatida, já que ela representa uma mudança de público e de produção no Brasil, e que com o sucesso dela, a Netflix abra mais espaço para produções nacionais, e que estas venham com mais qualidade.

 

 

 

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