ROTEIRISTA

EMPREENDEDOR

A arte de escrever personagens

20.02.2017

Personagens e Estrutura Dramática

 

Dentre todos os elementos de uma narrativa, nenhum se equipara em importância aos personagens. Não é difícil conceber filmes em que o autor abra mão do cenário (p. ex. o filme Dogville), de uma estrutura linear ou até mesmo da trama (p.ex. alguns filmes do Terrance Malick ou do Richard Linklater). Histórias sem personagens, no entanto, são impossíveis de existir.

 

Haver personagens pelos quais torcer é algo tão importante quanto a própria história. Ao questionar qual seria mais importante em um roteiro, a estrutura ou os personagens, o famoso guru dos roteiros Robert McKee, no clássico Story, escreveu:

 

"Não podemos perguntar qual é mais importante, estrutura ou personagem, porque estrutura é personagem. Eles são a mesma coisa, e por isso um não pode ser mais importante que o outro."

 

McKee insere os personagens dentro da própria estrutura dramática, reconhecendo que a trama deve servir tão somente para o desenvolvimento dos personagens. Seguindo esse pensamento, encontrar os personagens perfeitos para a sua história deve ser o primeiro passo para você escrevê-la. Depois que tiver seus personagens mais ou menos definidos, pode trabalhar na trama, na melhor sequência de eventos possível para exigir o máximo dos personagens que você criou. Mesmo que você ainda não conheça seus personagens mas já sabe algumas cenas que quer incluir na trama, pode fazer o inverso. Quais características meu personagem principal deve ter para que as cenas que eu imaginei sejam o mais dramáticas o possível?

 

 

A Função dos Personagens Principais

 

Mais do que jogadores competindo por seus objetivos, os personagens principais funcionam na história como âncoras emocionais. É através dos olhos do herói que o leitor enxerga o mundo da história. E quanto melhor a conexão entre que leitor e o personagem, quanto mais se identificar com ele, mais emoções ele sente. Para que servem histórias senão para sentirmos emoções?

 

Ter personagens que leitor se identifique é essencial por apenas um motivo: se o leitor se importa com os seus personagens, ele se importa com a sua história.

 

Mas como fazer com que o leitor se importe com um personagem que você inventou? Basta fazer com que eles pareçam reais. Fazer com que o leitor sinta como se conhecesse o personagem de algum lugar. Quanto melhor você fizer isso, melhor a conexão entre leitor e personagem e mais fortes as emoções que o leitor vai sentir.

 

Personagens bem desenvolvidos são memoráveis. Quem não tem um personagem favorito que sente que conhece tão bem quanto um amigo ou um parente? Os bons personagens saltam para a vida na página. O leitor desenvolve uma relação com eles. Torce para o herói ter sorte ao enfrentar as adversidades. Sente nojo com as atitudes do vilão. Ri das encrencas causadas pelo personagem secundário.

 

Acredito que se o desenvolvimento dos personagens em uma história é excelente, os leitores não se importam com uma trama sem graça. O contrário, no entanto, não é verdadeiro. Não adianta ter uma trama surpreendente se os personagens que a vivem são rasos e antipáticos.

 

 

Conhecendo seus personagens

 

O método para criação de personagens, assim como todo processo criativo literário, varia de autor para autor. Cada um usa o método que mais se adequar.

 

O importante é aprender a desenvolver os personagens na sua imaginação até que eles pareçam reais para você. Alguns dos métodos que eu já encontrei na internet para criação de personagens:

 

a) Questionários -- Tem em todo lugar. Você faz uma lista de informações de cada personagem (ex. nome, idade, descrição física, filosofia de vida, manias etc.) e vai preenchendo um a um.

 

b) Monólogo -- eu uso esse pessoalmente. Sem saber muito sobre o personagem, deito ele no divã da minha mente e peço para que ele fale de si e sobre os problemas que ele está passando. Ele conversa comigo como se eu estivesse canalizando um espírito, eu só escrevo.

 

c) Fotografias -- procure fotografias online de pessoas aleatórias. Escolha uma e deixe aquele olhar lhe contar uma história. Escreva.

 

d) Conhecidos -- pense em algum conhecido que serviria como molde para um determinado personagem seu. Como você o alteraria para se encaixar ainda melhor na sua história?

 

 

Descrevendo seus Personagens

 

É importante saber que seus personagens devem ser desenvolvidos muito além da descrição física. Na maioria das vezes, as características físicas são as menos importantes para o leitor entender o personagem. 

 

Faz sentido saber se um personagem é atraente ou esquisito, já que isso influencia diretamente muitos aspectos da vida do personagem. Mas dizer que alguém tem olhos castanhos não nos diz muito sobre que tipo de pessoa ela é. No caso específico do roteiro, essa atenção é multiplicada por dez tendo em vista que descrever fisicamente um personagem limita e muito a quantidade de atores que serviriam àquele papel. E essa decisão é melhor deixar para os produtores e o diretor.

 

Muito mais importante do que saber a cor dos olhos do seu herói é saber:

a) erros e acertos do seu passado;

b) opiniões e emoções;

c) tipo de educação e crenças;

d) postura, linguagem corporal;

e) maneirismos e estilo de fala;

f) forma com que reage a situações diferentes;

g) preferências, manias, hábitos;

h) forças, fraquezas, talentos especiais;

i) cultura, status social;

j) reputação, o que dizem sobre o personagem;

k) patrimônio.

 

 

É importante perceber que não é necessário saber todos esses detalhes de cada um dos seus personagens. Muitos detalhes não são relevantes para a trama que você tem em mente. Se não for, ignore. Eu mesmo não gosto de detalhar um personagem ao extremo, sinto que isso me limita o tipo de pessoa que ele pode ser. Ao contrário, gosto que o personagem vá se revelando na medida que eu escrevo sobre ele todos os dias.

 

 

Mostrar, não contar

Depois de definidas tantas características do seu personagem, você percebeu a quantidade de  pontos interessantes que você quer que o leitor saiba sobre seu herói. Qual a melhor forma repassar essa informação toda que você bolou para o leitor sem que ele fique entediado?

 

Eis que surge um dos mais conhecidos axiomas da dramaturgia: "Mostre, não conte," do inglês "Show, don't tell".  Mas o que esse princípio quer dizer?

 

Se você criou um personagem chamado João e decidiu que ele é briguento. Como você passaria isso para o leitor? Ao invés de simplesmente contar ao leitor "João gosta de arrumar brigas", pode mostrar João sendo brigão em uma cena.

 

Você pode mostrar o temperamento irascível de João na sua linguagem corporal, na forma com que ele se senta numa mesa de bar, por exemplo. Ele pode colocar os pés em cima da mesa e encarar os outros fregueses, por exemplo.

 

Ou pela palavras que ele escolhe ao responder ao garçom que pede delicadamente que ele tire os pés da mesa. "Eu coloco os pés aonde eu quiser," ou "Quem vai me obrigar?"

 

A ideia é escolher as cenas em que os personagens possam se revelar através das suas atitudes. Dê a eles uma situação específica em que a característica se mostre. Cenas desenhadas de acordo com as necessidades do personagem são o maior segredo de uma trama orgânica. Aquela que flui pelo simples fato de nos importarmos com aqueles personagens.

 

 

 

Keep writing

 

Please reload

O MELHOR PONTO DE PARTIDA

PARA NOVOS ROTEIRISTAS

Contato

Av. Bernardo Vieira de Melo, 2143 lj 07 

cxpst 023, Jaboatão dos Guararapes-PE

54410-010

roteiristaempreendedor@gmail.com

  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca Ícone Instagram

© Copyright 2015 Roteirista Empreendedor

Labonia Photo & Video LTDA. - www.roteiristaempreendedor.com

Contato Imprensa e Apoio - roteiristaempreendedor@gmail.com