ROTEIRISTA

EMPREENDEDOR

Por Dentro do Rio Content Market

14.03.2017

 

Estive no último Rio Content Market, ocorrido entre os dias 8 e 10 de março no Rio de Janeiro. Para quem não sabe, o RCM é considerado o maior evento do mercado audiovisual brasileiro. Elenco abaixo algumas perguntas e respostas, baseadas na minha primeira experiência neste evento como roteirista.

 

Pergunta: Vale a pena ir no RCM?

 

Resposta: Isso depende apenas de você e do nível real do seu trabalho. Pagar para assistir apenas as palestras pode trazer uns insights, mas nada que você não encontre na internet em vídeos de graça por aí. Estudo e pesquisa são essenciais para quem quer escrever. Quem vai ao RCM tem que ter cara de pau para se apresentar, levar uns cartões maneiros. Vale a pena ir nesses eventos de cinema porque este mundo é micro, as pessoas são sempre as mesmas e em quanto mais eventos você for, mais as pessoas se lembrarão da sua cara, mesmo que nunca tenham sequer trocado uma palavra com você. A partir daí você pode usar o artifício torpe – mas funcional – de decorar as fotos e os nomes, chegar junto daquele figurão de um canal ou produtora que está te olhando tentando saber de onde te conhece, chama-lo pelo primeiro nome e aí começar uma conversa só porque ele acha que já te conhece mas não se lembra. Aí você troca cartões, vende seu peixe e já valeu. Foi assim que abordei uma grande executiva de um canal que todo mundo sonha em entrar e que já está rendendo uma reunião. E se você já tem um projeto ACABADO e de boa qualidade, aí é obrigatório ir. E só o mailing que a Rede RCM te oferece quando você se inscreve na rodada de negócios já vale a inscrição escorchante.

 

Pergunta: O evento é legal?

 

Resposta: Acho médio. O Rio Market é mais organizado, menor e mais assertivo. O RCM é muito crowd, oba oba, gente que não é profissional ainda no mercado querendo fazer firula. Aí você quer assistir aquela palestra maneira de script development do Netflix e não consegue lugar, mesmo pagando mais de dez garoupas pela inscrição. Isso é péssimo. Mas para quem gosta de festinha, comer pipoca de graça e tirar selfie com ator global, ou seja, quem é deslumbrado em vez de profissional, é perfeito. Eu, que vou pra ser lembrado e para fechar trabalhos, acho tudo meio over e passei grande parte do meu tempo trancado no office do hotel (que fica liberado para os participantes) polindo meu roteiro, minha bíblia e meu pitch. Porque, afinal, estava lá para vender. É por isso que paguei tão caro.

 

Pergunta: Chegar só com uma ideia é legal?

 

Resposta: Não, não é. É a maior reclamação de quem recebe pitch, de cada vinte reuniões uma ou duas vale a pena porque a ampla maioria dos projetos ainda não está madura. Se você vai para um evento desses tentar a rodada de negócios, vá com seu projeto pronto, sua bíblia finalizada, seu roteiro do piloto polido até brilhar. Leve alguns one sheets do seu projeto e entregue apenas para os canais que têm aderência com seu projeto, executivos de canais ficam putos quando recebem propostas que não têm nada a ver com o perfil deles. Se você for selecionado para rodadas de negócios, leve a bíblia, o one sheet e o roteiro do piloto encadernados, bonitinhos (põe um wire-o, nada de espiral preta feiosa), leve um cartão e tenha certeza de que seu projeto está perfeitamente estruturado. Uma dica: recebi elogios porque sou neurótico com estrutura. Boas ideias tem de sobra por aí, mas executar boas ideias como roteirista depende muito de uma estrutura sólida, e os players reclamam muito que os roteiristas brasileiros são frouxos com estrutura e planejamento, especialmente em séries.

 

Pergunta: Como se vestir?

 

Resposta: Uma calça jeans, um tênis descolado e arrumadinho, uma camisa social maneira e já valeu. Terno faz você parecer um moleque que quer emprego. Roupa informal demais faz você parecer um estudante. Não tem um dress code fixo, mas existe bom senso. Ache o seu estilo.

 

Pergunta: As rodadas de negócio funcionam?

 

Resposta: Depende de você. O mercado quer boas estórias, mas não só isso. Os caras procuram gente que possa executar essas estórias. Se você chegar com uma ideia frouxa, o cara vai te odiar por gastar o tempo dele. Se você chegar com uma ideia sólida, boa, que faça brilhar seu olho e também o do executivo do canal, aí funciona muito. Dica: ter uma boa produtora contigo abre muitas, muitas portas. Os players sentem que a produtora já fez parte do trabalho de separar o joio do trigo. Apesar de ter inscrito meu projeto pela minha empresa, quando cheguei lá com a produtora que o comprou, que é uma grande do mercado, e sentei com eles na mesa, os olhos da galera do canal brilharam. Tenho certeza de que se tivesse apresentado a proposta já pela produtora grande parceira eu teria falado com mais canais.

 

Pergunta: Como fazer o pitch? 

 

Resposta: Eu fiz dois. No primeiro fui médio para ruim, mas a série é sólida, bem estruturada, então eu salvei a reunião e senti uma boa recepção. Serviu de lição para o do dia seguinte. Ensaiei o pitch em casa e no carro exaustivamente, várias vezes, cronometrei e consegui chegar onde queria, um pitch de 10 minutos redondo, perfeito, que deixasse os caras com gostinho de quero mais e permitisse ainda uns dez minutos para conversar amenidades, falar de produção, ouvir o canal (eles gostam de falar). Eu sugiro a seguinte sequência: Se apresente brevemente, resuma quem você é e a sua experiência. Se não tiver experiência em roteiros, resuma sua vida. Eles sabem que experiência de vida variada é essencial para dar perspectiva e melhorar a escrita. Depois, entre na trama. Recite sua logline, fale de três ou quatro personagens principais (não mais do que isso), de como elas interagem entre si e com a trama da série. Fale das motivações delas, dos defeitos, do que elas precisam. Mostre que você conhece suas personagens e faça o canal se animar e se apaixonar por elas. NUNCA fale de escalação de elenco a menos que seja perguntado, e você não será. Só se você já tem o ator garantido, mas mesmo assim não é legal porque disponibilidade de ator no Brasil é assunto espinhoso. Depois gaste um tempo falando da estrutura, da intersecção entre as tramas, do que acontece em cada ato de cada episódio, de como um episódio padrão será estruturado. E fale da aderência do projeto ao DNA do canal. Tudo isso em dez minutos. E aí abra para produtora falar de questões de produção. Meu primeiro pitch foi uma merda. Meu segundo, modéstia à parte, foi matador.

 

Pergunta: Vale a pena já ir com uma produtora? Óbvio que sim, se for uma das grandes os caras te recebem com sorriso no rosto. Se quer saber como conseguir uma produtora, acompanhe sempre o www.roteiristaempreendedor.com.

 

Pergunta: Tem gente que recebe roteirista sem produtora?

 

Resposta: As produtoras recebem. HBO, Globo e MTV, também. A HBO é acessível, mande um e-mail para eles que você consegue resposta, veja os vídeos da Krishna Mahon no canal Imprensa Mahon do Youtube, pegue o e-mail do pessoal da HBO, se apresente e seja feliz. Óleo de peroba na cara de pau é essencial. A Globo é meio inacessível, mas usando o velho truque de decorar as caras no anuário (sim, eu faço isso e dou uma de stalker, até porque estou lá pra fazer negócio, não para fazer fru fru) até dá para abordar e de repente descolar uma reunião. A MTV é bem acessível. E as produtoras estão MORRENDO atrás de conteúdo de qualidade. Aproveite para visitar principalmente as que têm stand ou mesa.

 

Pergunta: É possível de verdade fazer negócio lá? 

 

Resposta: Sim, é. Mas na verdade o negócio começa lá e termina fora de lá. Não se iluda, a decisão de colocar ou não um produto audiovisual no ar demora no mínimo seis meses, com sorte. Então, se você precisa de grana agora, melhor arranjar outra parada. Você só vai colher esses louros um ou dois anos depois. Eu tenho forte esperança de fechar a série a partir das reuniões que fiz lá.

 

Pergunta: As palestras são boas?

 

Resposta: Algumas sim, outras não. Mas se seu objetivo no RCM é ver palestra, então, mermão, é melhor você ficar em casa e poupar sua grana. É um evento de mercado. Vá lá para ver e ser visto e para fazer negócio, que acontece mesmo no lobby nos intervalos entre as palestras e no terraço à noite.

 

Pergunta: O que os canais e produtoras andam comprando?

 

Resposta: Conteúdo de marca, conteúdo para crianças 0-6 anos, projetos com mato, bicho e aventureiros de baixo custo, longas de comédia 4 quadrantes, programas originais de culinária em formatos que possam ser licenciados para o exterior, séries policiais procedurais e factuais de uma forma geral, que sejam ADEQUADOS AO PERFIL DO CANAL, não adianta fazer um factual e apresentar para o Discovery e para o History o mesmo projeto, as pegadas são diferentes. Mais uma vez os vídeos da Krishna Mahon são o seu norte, assista a todos e assine o canal. E se você tiver uma grande estória, que quebre paradigmas, que seja interessante e matadora, e que esteja muito bem estruturada, pode pitchiar que você vende. O mercado quer muito estórias originais, sólidas e bem acabadas. Preste atenção, originais, SÓLIDAS E BEM ACABADAS. Work in progress pertence apenas à mesa de trabalho do escritor. Ouvi muito player grande repetindo a mesma frase várias vezes: "sua ideia precisa de mais desenvolvimento". Se você ouve isso, é porque não fez o trabalho de casa direito.

 

Pergunta: É preciso CNPJ para participar?

 

Resposta: Não para entrar no evento, mas para as rodadas de negócios, sim. E o RCM é feito para quem tem CNPJ, então arranje um. Roteirista independente sem CNPJ não consegue muita coisa no mercado.

 

Rafael Peixoto é publicitário, roteirista e palpiteiro profissional. Faz uma moqueca de siri matadora e adora escrever filmes e séries cheias de sangue, musicais lacrimejantes e dramalhões mexicanos. Saiba mais em www.rafaelpeixoto.com.br

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