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Menos é Mais - Como elementos demais podem estragar seu roteiro.

08.04.2017

 

Muitas vezes, nós roteiristas – eu incluso – nos pegamos pensando e planejando arcos de personagens, backstory, subplots e ganchos que muitas vezes acabamos por complicar uma história que era para ser simples. Hoje nós vamos falar de simplicidade e como ela é sua maior aliada para criar histórias universais.

 

Antes de desconstruir o conceito, vamos lembrar do que faz uma história ser tão memorável e universal. Vamos relembrar alguns dos grandes filmes da história do cinema.

 

TOOTSIE – Um ator se disfarça de mulher para conseguir um papel, mas sente na pele o machismo que ele mesmo praticava enquanto se apaixona pela sua colega de trabalho.

 

ALIEN – A tripulação de uma espaçonave precisa lidar com uma temível criatura confinada junto com eles.

 

RAIDERS – Um arqueólogo e aventureiro descobre o paradeiro da Arca da Aliança e precisa recuperá-la antes dos nazistas.

 

Histórias simples são fáceis de entender e explicar. Não precisa muito para entender o contexto e a mensagem da história e com poucas palavras já é possível fisgar a essência, o clima, o gênero e o desenrolar da trama.

 

Agora vamos tentar explicar Batman V Superman – A Origem da Justiça com poucas palavras.

 

BvS – Depois da destruição de Metropolis, Batman decide que Superman é uma ameaça e toma para si a responsabilidade de destruí-lo. Enquanto Lex Luthor planeja estudar a tecnologia kryptoniana e o corpo do General Zod. Lois Lane tenta provar que Superman não é responsável pelo assassinato de civis no oriente médio enquanto o senado o julga responsável por conflitos ao redor do globo. Diana Prince, a Mulher Maravilha tenta recuperar uma foto que prova que ela é uma meta humana e se junta com Batman e Superman par combater o Apocalypse, criado por Lex Luthor usando a tecnologia kriptoniana. Batman rouba arquivos da Lexcorp e descobre a presença de outros meta humanos na terra e decide uni-los para combater a ameaça que está por vir. Ah, ele também tem um sonho/visão do futuro onde Superman se torna malvado e domina o mundo infestado por parademônios, que anunciam a chegada de Darkseid na terra.

 

Entendeu? Ficou confuso? Sobre o que é esse filme? Quantas linhas narrativas? O que é isso que está acontecendo?

 

Batman v Superman não é um filme ruim, pelo contrário, eu como nerd esperei minha vida inteira para ver Batman e Superman dividirem a tela, o problema é que a Warner tentou resolver muita coisa em um único filme.

 

Homem de Aço, apesar das críticas, foi um filme que deu certo. Introduziu a mitologia kryptoniana, fez um arco completo com o seu protagonista e fechou com um final conclusivo. Homem de Aço foi o Homem de Ferro da Warner... Aço... Ferro... COMO EU NUNCA ME LIGUEI NISSO ANTES?

 

Assim como Homem de Ferro, o Homem de Aço é a porta de entrada de um universo cinematográfico de super-heróis, mas antes de mais nada, ele é um filme completo, com início, meio e fim.

 

HOMEM DE FERRO – Bilionário armamentista é sequestrado por terrorista para construir uma de suas armas, mas depois de escapar ele decide usar sua tecnologia para livrar o mundo das armas que ele mesmo criou.

 

Simples, certo?

 

HOMEM DE AÇO – Depois de ser enviado para a terra, Superman precisa aprender a usar seus poderes para defender seu novo mundo das ameaças de seu planeta natal.

 

Homem de Aço deu certo porque não tentou ser mais do que é. Uma história sobre aceitação, sobre solidão e sobre quem nós realmente somos. Claro que tudo isso está disfarçado por trás dos efeitos especiais e lutas entre deuses. O filme tem início meio e fim, e como na época de lançamento, ninguém podia prever se esse universo iria deslanchar, o filme se preocupa mais em ser um bom filme do que em preparar o terreno para os próximos.

 

E foi aí que Batman v Superman falhou. Tentou fazer vários filmes em um só, além de um trailer de duas horas para os próximos filmes, além de apresentar personagens para seus filmes solo, além de explorar subtramas de personagens secundários que ninguém vai lembrar. Vamos tentar lembrar das linhas narrativas presentes em BvS.

 

PLOT A – Batman v Superman. O motor dramático do filme está no seu título e no seu clímax. O embate entre os heróis é o principal atrativo da história, que foi adaptada da graphic novel The Dark Knight Returns, de Frank Miller.

 

PLOT B – Lex Luthor planeja usar kryptonita e tecnologia kryptoniana para defender a terra da ameaça do Superman, criando assim o monstro Apocalypse, adaptando a saga A Morte do Superman.

 

PLOT C – Lois Lane investiga o atentado que incriminou o Superman pela morte de civis no Oriente Médio e inicia uma cruzada para provar sua inocência.

 

PLOT D – Diana Prince, a Mulher Maravilha precisa recuperar uma fotografia que prova que ela é uma meta-humana dos servidores da Lex Corp e descobre que Lex está secretamente investigando meta-humanos.

 

PLOT E – Um funcionário da Wayne Enterprise perde a perna durante a batalha de Metrópolis e decide culpar Superman pela tragédia, unindo forças com Lex Luthor para incriminá-lo pela destruição da cidade.

 

PLOT F – Batman, que perdeu os pais quando criança, passou 20 anos combatendo o crime como um vigilante, até que Superman é revelado e agora ele precisa reencontrar o herói que foi perdido dentro dele ao passar dos anos.

 

PLOT G – Clark Kent investiga as ações do vigilante Batman em Gotham por discordar dos seus métodos de combate ao crime.

 

PLOT H – Lex envia cartas ameaçadoras para Bruce e sequestra a mãe de Clark, Martha, para obrigar os dois heróis a se enfrentarem.

 

Além de todas essas pontas para amarrar, o filme ainda deve se preocupar em dar um preview dos outros heróis e tem a obrigação de servir como trailer para o filme da Liga da Justiça.

 

Escrever um roteiro de um mega blockbuster é um desafio em dobro. Além de ter que escrever um roteiro cheio de técnicas, estrutura narrativa, com personagens e diálogos memoráveis, ainda existe o desafio de incorporar todos os elementos que o estúdio, no caso a Warner exige que esteja no filme. E quem paga a conta, no fim das contas, tem a palavra final.

 

O roteirista responsável por BvS é David S. Goyer, um dos maiores nomes de hollywood no momento. Ele é responsável pelos roteiros de Batman Begins, Homem de Aço, da trilogia Blade, The Dark Knight, de Christopher Nolan, além das animações da Liga da Justiça e do game Call of Duty: Black Ops. Goyer é um storyteller multimídia e se divide entre Cinema, TV e Games. Seu talento é inegável, porém é fácil entender que o fracasso narrativo de BvS não foi culpa dele.

 

Como foi visto na trilogia Batman de Christopher Nolan, Goyer é um roteirista que preza pela simplicidade, as vezes até demais. Muitos críticos consideram que ele é simplista demais na forma como escreve, sempre buscando dar informações simples e mastigadas para o público, então como é que ele caiu nessa armadilha de complicar tanto um roteiro? Esse é o desafio do roteirista de franquias. Ele escreve aquilo que lhe é mandado.

 

Mas para nós, roteiristas que não temos executivos multimilionários ditando as regras dos nossos roteiros, cabe a nós saber dosar a mão. Lembre-se que roteiro é que nem piada, se você precisar explicar depois é porque é ruim. Da mesma forma que para “explicar” Batman v Superman, a Warner “teve” que lançar uma versão estendida com meia hora a mais de filme para tentar dar mais sentido e contexto a narrativa. Parece que no fim das contas BvS é um filme ruim, apesar da minha nerdice querer acreditar no contrário.

 

Quem diria.

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