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Passageiros - Um Estudo Sobre Protagonismo

06.05.2017

 

Passageiros (Passengers, 2016) foi escrito por Jon Spaihts, roteirista de Prometheus e Dr. Estranho e dirigido por Morten Tyldum, que em 2014 dirigiu O Jogo da Imitação.

 

O filme conta a história de Jim, interpretado por Chris Pratt. Depois que a espaçonave Avalon sofre um mal funcionamento, Chris Pratt acorda de sua hibernação 90 anos antes do tempo e decide acordar Jennifer Lawrence, condenando-a ao mesmo destino - morte - apenas para que ele possa ter companhia e não morrer sozinho.

 

O filme é uma ficção científica com traços de romance e suspense e esse foi o caminho que o estúdio resolveu seguir, mas será mesmo que Passengers é o melhor filme que poderia ser? Esse artigo contém SPOILERS e nós vamos dissecar a estrutura narrativa do filme, se você ainda não assistiu Passageiros, assista e depois volte pra cá.

 

Recentemente eu me deparei com um vídeo que traduziu exatamente o que eu pensava sobre o filme. O video pertence a um fantástico canal chamado NerdWriter1 e já tem mais de um milhão de vizualizações.  para quem consegue entender bem inglês, eu recomendo muito. é um dos canais que eu assino e recebo notificações do youtube. Pra quem não entende eu vou compartilhar aqui com vocês agora essa tese.

 

Enfim. O personagem principal do filme é Chris Pratt. Ele acorda, passa o restante do primeiro ato sozinho, até que decide acordar outra pessoa, Jennifer Lawrence, outra passageira. Os dois começam a viver um romance até que Lawrence descobre a verdade, que Prat a acordou e a condenou a morte. Ela fica furiosa, até que a nave começa a apresentar defeitos de novo. Chris Pratt tenta se sacrificar para salvá-la, mas ela acaba salvando ele, os dois se apaixonam de novo e vivem o resto da vida sozinhos na nave e felizes para sempre.

 

Então, basicamente, podemos dividir esse filme em 5 momentos distintos:

 

1- Chris Pratt acorda. - Incidente Inicial

2- Chris acorda Jennifer. - Primeiro Ponto de Virada

3- Ela descobre a verdade. - Midpoint

4- Chris se sacrifica. - Segundo Ponto de Virada/Tudo está Perdido

5- Ela o perdoa. - Resolução

 

Passageiros está longe de ser um filme ruim, pelo contrário. O filme engaja o espectador e o fato de que Chris Pratt e Jennifer Lawrence sejam atores de classe mundial também ajuda. O problema principal do filme é que ele é previsível.

 

Estruturalmente falando, o filme é perfeito. Quando você desconstrói a estrutura, percebe que todos os beats estão nos lugares certos, então qual é o problema? 

 

O "problema" não é exatamente um problema, mas é uma daquelas situações onde uma leve mudança de perspectiva pode mudar tudo.

 

Um dos diferenciais do filme é o roteiro focado em apenas dois personagens completamente sozinhos. Sem um elenco grande, o estúdio pode se concentrar em contratar os dois mais caros atores da atualidade, mas teria sido essa a melhor escolha?

 

O roteiro de Passageiros é intimista, contido, em uma única locação, com apenas dois personagens, ou seja, tem todos os ingredientes que os estúdios gostam. Um filme barato e fácil de fazer. O tipo de roteiro ideal para qualquer novo roteirista que quer entrar no mercado. Os melhores roteiros são aqueles com o melhor custo/benefício. Passageiros tinha um roteiro de filme independente, mas com tratamento de blockbuster, percebe o potencial grandioso que existe nessa relação?

 

No entanto, Passageiros não fez o sucesso esperado na bilheteria e para todos os efeitos, foi considerado uma "bomba". Isso porque do seu orçamento de 110 Milhões de Dólares, o filme fez "apenas" 300 Milhões nas bilheterias mundiais, e quando um filme estrelando os dois mais conhecidos atores da atualidade não consegue fazer o mínimo do mínimo, que é triplicar o seu custo, alguma coisa está errada.

 

Dos 110 Milhões de dólares, o estúdio pode pagar o cachê integral de Jennifer Lawrence (20M) e o de Chris Pratt (12M). Sim, Jennifer Lawrence ganha mais do que Pratt, mesmo ele sendo o protagonista. Isso porque em termos de valor geral de mercado, ela vale mais do que ele. O cachê dela representa 20% do custo total do filme, em uma produção que envolveu, talvez milhares de pessoas. Mas guarde essa informação, pois ela é importante.

 

Agora levando tudo isso em conta, eu quero lançar a pergunta: Por que Chris Pratt é o protagonista e não Jennifer Lawrence? Afinal, se você tem a atriz mais bem paga e popular do mundo a sua disposição, por que não maximizar a exposição e torná-la a protagonista?

 

os reais motivos são desconhecidos. Você pode teorizar, como eu, mas o fato é que a decisão de ter Chris Pratt como protagonista pode ter custado ao estúdio algumas centenas de milhões de dólares. Eu não estou falando de simplesmente inverter os papéis, mas de mudar o PROTAGONISMO da história de Jim (Pratt) para Aurora (Lawrence). É sobre isso que a tese do Nerdwriter diz. Vamos voltar ao filme.

 

A principal fonte de conflito está entre Jim e Aurora, óbvio, já que são os únicos personagens acordados do filme, e acontece principalmente no segundo ato, quando Jim e Aurora se apaixonam, apenas para depois ela descobrir a verdade e ficar furiosa. O problema é que nós, a audiência já sabemos de tudo e já esperamos a sequência de acontecimentos. Nós SABEMOS que Jim acordou Aurora e nós SABEMOS que ela vai descobrir eventualmente e ficar furiosa. Esse é o centro dramático do filme. não dá pra ser previsível quando se trata do centro dramático do filme. O resultado disso, é que o filme precisa de um segundo elemento externo, ou seja, um segundo defeito na nave para mover o plot adiante, já que sem isso o conflito dos dois jamais se resolveria sozinho.

 

A sugestão aqui, é simplesmente mudar o protagonismo da história e re-estruturar o filme para que Aurora seja a protagonista. Vamos ver como isso seria possível.

 

Quando tentamos enxergar a mesma história pelos olhos de Aurora, O filme imediatamente se torna mais denso, mais misterioso e muito mais imprevisível. Vamos imaginar o seguinte:

 

O filme começaria com Aurora acordando sozinha na nave vazia e então encontrando Chris Pratt, outro passageiro que também foi misteriosamente acordado antes da hora. Imediatamente, o TOM do primeiro ato do filme muda completamente.

 

No primeiro ato original, nós ficamos com Jim o tempo todo enquanto ele tenta acessar os controles da nave e enquanto ele se adapta a vida sem ninguém.

 

Mas por esse novo ângulo, o primeiro ato se torna muito mais denso, pois pelo ponto de vista de Aurora, Ela e Jim estão no mesmo barco -- entendeu? Huh? -- Sem saber o que aconteceu antes, os dois passam a ser companheiros, mas graças a interpretação de Pratt, o personagem Jim tem toques de mistério e seu olhar chega a ser sinistro em alguns momentos, isso porque ELE SABE o que ele fez, mesmo que a gente não saiba ainda. 

 

Percebe como a nossa relação com a história também muda? Enquanto na primeira versão nós já sabemos de tudo e apenas esperamos pra ver como os personagens vão descobrir e lidar com as situações. Na segunda, nós estamos descobrindo aos poucos, junto com ela o que aconteceu, e quando nós finalmente descobrimos junto com ela, a cena ganha muito mais peso e carga dramática. é uma experiência muito mais gratificante para quem assiste.

 

É quando você percebe o quanto a atuação de Chris Pratt é boa, nesse filme. Quando você despe o personagem de seu ponto de vista, ele passa a ter uma aura sinistra. Você não sabe se pode ou não confiar nele e isso faz com que a audiência tenha uma experiência ATIVA em tentar desvendar o mistério, ao invés de uma experiência PASSIVA, apenas acompanhando o desenrolar das coisas.

 

A mudança transformaria o romance de ficção científica em um thriller de suspense genuinamente perturbador que mergulha no âmago da solidão humana. "A Felicidade só é real quando compartilhada".

 

Com a nova estrutura, podemos reorganizar os 5 beats principais da história da seguinte forma:

 

1- Jennifer Lawrence acorda

2- Jennifer e Chris se apaixonam.

3. Jennifer descobre a verdade

4. Chris se sacrifica.

5. Ela o perdoa.

 

Aproveitando o mesmo final, a resolução passa a ter uma densidade maior, já que se ela escolha não perdoá-lo, ela estará condenada a morrer sozinha.

 

Mas e se o filme se assumisse como um suspense de horror e seguisse um caminho como o de O Iluminado, transformando Pratt em um vilão que você entende. Se no final, Pratt resolvesse simplesmente Matar Jennifer e acordar outra pessoa, ele teria várias chances diferentes de ter companhia, o que seria um sonho para qualquer sociopata. Mas se Jennifer sobrevivesse e matasse Pratt? Ela ficaria sozinha e eventualmente ela se tornaria o vilão que Pratt foi um dia, contemplando a possibilidade de acordar outra pessoa.

 

Esse filme e essa tese me fizeram pensar como é importante abordar histórias de vários ângulos diferentes antes de seguir em frente. As vezes nós estamos tão presos no nosso próprio ponto de vista que somos incapazes de nos colocar no lugar de outra pessoa. Isso é natural e acontece com todos nós.

 

Para finalizar, eu deixo aqui o link para o video do nerdwriter, onde ele re-editou partes do filme com Jennifer Lawrence como protagonista. Assista e tire suas próprias conclusões.

 

O que você acha? Você acha que o filme seria melhor como um suspense de terror? Você gosta da versão romântica atual? O que você faria de diferente? Deixe seu comentário e curta nossa página!

 

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