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Stranger Things - (DES)Construindo o Primeiro Ato.

18.06.2017

 

Escrever para plataformas de streaming hoje parece ser o caminho favorito dos roteiristas. A liberdade das plataformas, principalmente a Netflix, a grande major desse mercado, com o orçamento de grandes produções que antes estavam restritos a TV a cabo. Além de ser um mercado em expansão sem precedentes, ainda existe a vantagem narrativa.

 

Por ser uma mídia desprovida de intervalos comerciais e publicidade, ela permite uma narrativa constante, sem a divisão de atos obrigatória na TV. É um roteiro mais imersivo, mais parecido com o de um longa-metragem. Sem a necessidade de re-engajar o espectador a cada intervalo, as produções de streaming pode se dar tempo para desenvolver personagens e situações de uma forma mais caprichada, sem a pressão de ter que passar muita informação em pouco tempo.

 

Com esse espírito, e para exercitar o nosso processo criativo, vamos fazer uma análise e desconstrução, também conhecida como “script breakdown” da cena inicial do piloto da série de sucesso da Netflix Stranger Things. Vamos ver como os irmãos Duffer escolheram abrir a série e como eles usaram referências e memória afetiva para prender seu público. A série já foi renovada para mais uma temporada.

 

Existem algumas diferenças entre o roteiro e a versão final. Pra começar, a série se chamava Montauk e era ambientada em Nova York. O roteiro original do piloto está disponível AQUI em sua versão original em inglês, caso você queira ler o episódio inteiro.

 

Montauk é uma cidade em Long Island, NY. Os gêmeos Matt e Ross Duffer queriam que a trama se passasse em uma cidade costeira, como no clássico de Steven Spielberg TUBARÃO.

 

“Nós estávamos animados com a ideia de filmar na costa. Nosso filme favorito de todos os tempos é Tubarão e Montauk serviu de base para a cidade de Amity - do clássico de Steven Spielberg – Acho que foi daí que veio a ideia. Mas tivemos que optar por não filmar em uma cidade costeira por motivos logísticos de produção”

(Ross Duffer)

 

Embora não fosse a visão original que os irmãos queriam, Montauk perdeu seu nome, se tornou Stranger Things e se mudou da costa para o interior dos Estados Unidos, para a cidade fictícia de Hawkins em Indiana, uma homenagem ao professor Stephen Hawkins.

 

No final a mudança teve um efeito positivo. A série perdeu o clima de “Tubarão” que os irmãos queriam, mas ganhou o clima de “ET”, outro clássico de Spielberg. A mudança de locação permitiu – obrigou – os irmãos a capitalizarem no efeito nostalgia que esses clássicos dos anos 80 causam.

 

Sabendo disso, fica mais fácil compreender algumas das diferenças entre o roteiro e o produto final, o piloto da série.

 

Mas a estrutura e as técnicas narrativas continuam as mesmas. Muitas vezes uma cena vai ser ligeiramente diferente, mas no processo de adaptação, muitos fatores podem influenciar em tais mudanças e em 99% dos casos são limitações de produção. Afinal de contas, nã basta só contar uma boa história, essa história também tem que ser BONITA, nos sentidos visual, estético e de qualidade.

 

Se você quiser ver os primeiros 8 minutos do piloto, a NETFLIX disponibilizou a cena de abertura no youtube que você pode assistir agora.

 

 

Assistindo a esses 8 minutos de abertura, podemos dividir essas cenas em quatro partes.

 

- O Desastre do laboratório (O gancho)

- Apresentação dos garotos (O jogo, a casa)

- O Caminho de volta (Saída da casa, corrida)

- Perseguição e desaparecimento (Incidente Inicial)

 

Cada parte tem uma função bem específica e objetivos claro para cumprir. Vamos conversar sobre cada um deles aqui e ver por que esse teaser funciona tão bem para criar o engajamento necessário para segurar a audiência por uma temporada inteira.

 

E nos deparamos com a primeira diferença nessa cena do gancho. Na página, o cientista sai pela porta e cai morto no chão. Nós então entramos dentro do laboratório atrás dele e vemos a destruição causada por alguma coisa.

 

No piloto o cientista sai da porta correndo e nós vamos com ele. O motivo da mudança, acredito eu, deve ter vindo de uma princípio que eu, assim como muitos outros roteiristas aprendemos na faculdade: "Quando estiver na dúvida sobre o que mostrar, Mostre onde tiver mais emoção". Nessa cena, a emoção está justamente com o cientista e ao ficar com ele, os irmãos adicionam na emoção de medo que todo mundo pode se identificar: estar sendo perseguido por um perseguidor invisível. Quem já deu aquela corridinha na volta do banheiro de madrugada sabe!

 

Os criadores trocaram o mistério pelo horror e ao invés de nos MOSTRAR um monte de coisa que o monstro fez, somos convidados a ver a REAÇÃO de pavor e pânico de alguém que acabou de ver um demônio em pessoa. A narrativa EMOCIONAL nesse caso funciona muito melhor. Você não precisa ver exatamente o que aconteceu, mas a reação é o suficiente pra você saber que deve ter muito medo do que quer que esteja ali.

 

A cena termina com o cientista tentando entrar no elevador e sendo surpreendido pela criatura, que já está acima dele. Essa "tática" da criatura de surpreender a presa por trás - sem duplo sentido! - vai se repetir mais na frente.

 

No final, ficamos com o SOM da CRIATURA. não o vemos, mas escutamos seu rosnado gutural e um som parecido com uma serpente. HISSSSSSS.

 

Como você já deve ter percebido, o HISS cria uma transição sonora conhecida como MATCH SOUND. funciona como um MATCH CUT, para o som. Muitos filmes fazem isso para suavizar a transição entre cenas.

 

Da página para a tela, muita coisa foi perdida, principalmente na descrição detalhada da vizinhança. Não que a descrição seja ruim, mas como a cena seguinte já vai passar a sensação de "Qualquer lugar na América", a típica família suburbana dos anos 80. A decisão aqui foi de evitar uma redundância narrativa e mover logo a história adiante.

 

 

Aqui eles apresentam os personagens. Tudo nessa sequência é friamente calculado para definir cada um dos protagonistas e dar uma pista dos conflitos que eles estão para enfrentar. Começam também um mar de referências. Lembra do que eu falei sobre a nostalgia? A memória emotiva tem um papel muito grande nessa série. 

 

Quando Will diz: "Nós estamos ferrados se for o Demogorgon" ele está criando um paralelo emocional direto entre o medo do Demogorgon e o medo da criatura do gancho. O monstro ganha um nome.

 

Os garotos são introduzidos jogando D&D. Sabe que outro filme também começa com um jogo de D&D? Acertou quem pensou em ET. - Booyah! - Imediatamente, nossa memória afetiva nos leva de volta aquele universo e imediatamente estamos contextualizados . Percebe como manipular as emoções do seu público é importante? Mesmo sendo apenas uma PARTE do público - pessoas que cresceram nos anos 80 - o grande trunfo da série é que tem bastante conteúdo para todos os públicos. As crianças têm papel de protagonismo na série, os adolescentes têm seu próprio núcleo e conflitos internos, com temas mais maduros. Os Adultos são agraciados com um mar de referências nerds, e aqueles que não são nerds acompanham conflitos adultos, como a dor de uma mãe que perdeu o filho. A série consegue oferecer arcos narrativos de qualidade para todas as suas faixas de público.

 

Isso se chama "Escrita Inteligente."

 

Vamos voltar aos garotos.

 

Nesse primeiro momento os papéis já são definidos. Mike é o Mestre, o líder. É dele de onde vão partir as idéias e decisões que vão definir a trama. Lucas é o cavaleiro, ele ataca primeiro e pergunta depois. É impulsivo e falastrão. Dustin, o anão, é a cautela, a opção pelo caminho mais seguro. Will é pego no meio, sem saber o que fazer, mas em seu último impulso, ele escolhe a magia OFENSIVA. isso também tem um payoff mais tarde. 

 Ter o Demogorgon como monstro  e apresentá-lo dessa forma foi um artifício de mestre.

 

O monstro de duas cabeças representa conflito interno. Uma criatura que pode se apresentar com uma cara e ter outra por trás. é a representação física de um TRICKSTER, um Transmorfo, aquele que tem duas caras, agente duplo, que muda de lado.

 

Mas as duas cabeças também representam duas metades de um mesmo ser, como Dr Jekyll e Mr Hyde, como Bruce Banner e Hulk. Como Eleven e o Demogorgon. 

 Temos mais dois elementos importantes que acontecem aqui nessa cena. Descobrimos que Dustin tem uma queda pela irmã de Mike. Descobrimos também que Lucas está mais preocupado com a vitória...

 Enquanto Will, está mais preocupado com a justiça. Ele não quer ganhar das formas erradas. É por isso que ele confessa para Mike que tirou 7 nos dados e não os 13 necessários para soltar a bola de fogo. Ele então dá a deixa para o que vai acontecer com ele logo em seguida: "o Demogorgon me pegou". Essa cena não está no roteiro mas adiciona um elemento necessário para o personagem Will. como ele é o que vai desaparecer, é importante que no pouco tempo de tela que ele tem no piloto, que a gente veja ele como um bom menino, justo e honesto. Isso faz com que a gente sinta mais quando ele é levado.

 

 

Começamos então a terceira parte do teaser. O caminho de volta. Os garotos vão pra casa e Will, que mora mais longe, vai o resto do caminho sozinho.

 

Uma curiosidade dessa cena, é a referência ao gibi X-Men 134 que Will e Dustin apostam na corrida de bicicleta. Essa é uma edição que trata de mais um caso de um personagem superpoderoso com um enorme conflito interno: A FÊNIX NEGRA.

 

"Escutem-me, X-Men! Não mais eu sou a mulher que vocês conheceram! Eu sou o fogo! Eu sou a vida encarnada! Agora e sempre -- Eu sou a Fênix!"

 

O PONTO DE VIRADA da cena é exatamente na hora em que o farol da bicicleta de Will apaga. Naquele momento ele cruza a barreira entre o mundo real e o mundo invertido. Logo antes dele se deparar com o Demogorgon!

 

O monstro persegue Will até sua casa. Will busca abrigo na cabana de ferramentas, no fundo do quintal, mas o Demogorgon repete a tática da cena gancho e já está lá dentro esperando por Will.

 

E assim como no jogo de RPG, Will aqui escolhe a solução ofensiva.

 

Mas assim como no jogo, ele não consegue a "rolagem" necessária para atacar. Ele trava.

 

E o Demogorgon pega ele.

 

Percebe como tudo se encaixa na temática narrativa da série? Percebe como em menos de 10 minutos os irmãos Duffer criaram um universo, uma mitologia e popularam esse universo com personagens?

 

 

E "O desaparecimento de Will Byers" é o Incidente Inicial da trama e o título do primeiro episódio. Assim termina o primeiro ato de Stranger Things.

 

Você gostou? Achou que as mudanças do roteiro para a tela foram bem utilizadas? Achou que os personagens foram apresentados de forma satisfatória? O que você faria de diferente?

 

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