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Storytelling Problemático - The Last Jedi

06.01.2018

 

*SPOILERS A FRENTE*

 

Esperei passar o buzz e as festividades de final de ano para poder responder o que alguns colegas me perguntaram no Facebook: O que você achou do roteiro de The Last jedi? Como tudo hoje em dia, eu também tenho em minha lista de amigos, gente que ocupa os dois extremos do espectro. Gente que adorou o filme e defende cegamente como um sindicalista defende o Lula, outros estão no outro extremo e fazem questão de deixar claro pra todo mundo que o filme é um lixo e que quem gosta também é lixo. Eu já habito uma posição mais central. O filme tem sérios problemas narrativos, isso é fato, mas está longe de ser um desastre.

 

Antes de mais nada, eu quero deixar claro que eu sou um fã ardoroso de Star Wars. sobrevivi a Midi-Chlorians, Jar-Jar Binks, Jake Lloyd, Hayden Christensen, sobrevivi ao "nooooooo" de Vader e aos Ewoks. Bitch, please, não são Porgs que vão me derrubar.

 

As principais falhas de The Last Jedi estão no roteiro. coisas que chamamos de "screenwriting 101", ou seja, fundamentos do storytelling que vieram errados de fábrica e são a causa de tamanha comoção em meio aos fãs. Como Filme ele tem falhas, mas como parte de uma saga, ele falha mais ainda ao ignorar fatos históricos, as regras do universo e ao introduzir artifícios que se fossem conhecidos antes, mudariam completamente o universo de Star Wars.

 

Para falar desse texto, vamos estar sempre pensando nos paralelos entre TEMA e EXECUÇÃO, porque é assim que devemos analisar um roteiro. O que o roteirista quis fazer e como isso foi executado?

 

Vamos começar pelos Temas do filme. The Last Jedi é um filme que fala sobre relações entre pais e filhos, sobre traição, sobre esperança e sobre aprendizado, temas recorrentes na saga. O roteirista e diretor Rian Johnson ignorou alguns mistérios introduzidos por JJ Abrams e resolveu seguir o seu próprio caminho usando um famoso artificio narrativo chamado "Reversão de Expectativa". Você faz o público acreditar que é uma coisa, quando na verdade é outra. Em Star Wars isso não é difícil, já que a maio parte dos fãs já entra no cinema com um filme feito na cabeça e quando o filme não corresponde as fantasias criadas, eles ficam furiosos. Johnson reverte as expectativas o tempo todo, criando plot twists para surpreender a audiência. Mas o maior pecado do roteiro de The Last Jedi, na minha opinião é a indecisão. O filme me parece indeciso. A impressão que eu tenho é que existiam dois filmes, um que a Disney queria fazer, e outro que Rian Johnson queria fazer. Na dúvida, ao invés de escolher um ou outro, ele resolveu fazer os dois. Vou exemplificar.

 

 

Kylo-Ren está prestes a matar Léia, Oh não! Ah, não importa, ele não teve coragem de atirar. Ops, não importa, porque outra nave atirou por ele. Ops, não importa, porque Leia não morreu de verdade. Ops, não importa porque ela ficou em coma a maior parte do filme. Percebe o que eu quero dizer?

 

Que tal no clímax do filme? Nós vimos que Luke tem uma X-Wing na ilha onde ele está e assumimos que uma hora ele vai usá-la para sair. Esse é o mesmo princípio da arma de Chekov, que diz que se você mostrar uma arma no começo do filme, essa arma OBRIGATORIAMENTE terá que ser disparada no final. Se você mostra a nave, você tem obrigação de usá-la. Mas Johnson novamente fica indeciso. Luke aparece para enfrentar Kylo, mas não importa, porque ele não foi de verdade. O que também não importa, porque ele morreu do mesmo jeito. Se o destino de Luke é morrer, porque não morrer em combate como Obi-Wan em A New Hope?

 

Outro ponto problemático é a solução final que Holdo encontra para destruir a frota de Snoke. Um sacrifício sem sentido, uma vez que os fãs dos filmes não sabem quem ela é e o sacrifício dela não tem peso emocional para nós. Ela usa a velocidade da luz para atropelar a frota e destruir tudo em seu caminho e isso foi uma solução preguiçosa de alguém que não entende a história de Star Wars. Sim, um grão de areia, se acelerado a velocidade da luz se torna capaz de atravessar qualquer coisa devido a sua quantidade massiva de energia acumulada. Uma nave, então, é capaz de um estrago monumental. Se essa solução existe em Star Wars, isso acaba completamente com a mitologia dos outros filmes. ora, por que a rebelião não fez isso para destruir a Estrela da Morte? Ah, propósito, em um universo em que isso é possível, não existe a necessidade de uma estrela da morte para começo de conversa. Uma nave na velocidade da luz é mais do que suficiente para destruir um planeta inteiro. Essa falha, para mim, não só estragou o filme, mas também estragou todos os outros filmes anteriores e fez todo o conflito até agora perder a importância.

 

Tematicamente o filme faz sentido, mas foi a execução que foi mal feita. Toda a sequência do planeta cassino, a mais odiada pelos fãs funciona tematicamente, mas foi extremamente mal executada. A missão inútil de Finn e Rose, além de falhar miseravelmente, serve apenas para introduzir um dos temas do filme, de que a esperança não morre com a resistência, que ela segue nas novas gerações e que a força pode se manifestar em qualquer pessoa. A sequência foi feita para refletir a realidade de Anakin Skywalker, que também nasceu escravo em um planeta remoto. Aliás, muitos elementos de The Last Jedi funcionam como espelhos de momentos passados.

 

 

A relação entre Luke e Rey, é completamente espelhada na relação entre Luke e Yoda em Dagobah. Luke então era um garoto sedento por conhecimento e Yoda era um velho mestre desiludido que só queria morrer em paz. Aqui a situação é a mesma. Assim como Dagobah, a ilha onde Luke está também tem uma caverna que é forte com o lado negro, e assim como Yoda disse em Império Contra-Ataca "lá dentro você vai encontrar apenas o que levar consigo". Outro grande mestre,  Joseph Campbell, também já falou sobre isso: "Na caverna que você tem medo de entrar, estão as respostas que você procura". Rey entra na caverna com uma pergunta na mente: quem são meus pais? A caverna responde com uma imagem dela mesma, um exato espelho da cena em Império, quando Luke entra na caverna e vê ele mesmo debaixo da mascara de Vader. Ali, a visão era um aviso do que ele poderia se tornar se cedesse ao lado negro. Aqui, a resposta vem para mostrar que não interessa quem são seus pais. a sua história começa com você.

 

Vamos falar sobre a maior birra dos fãs. O que aconteceu entre Luke e Ben no templo Jedi. Ao contrário do que muitos pensam, Luke não decidiu matar Ben porque sentiu nele uma predisposição ao lado negro. Isso seria absurdo. Porém, esse é mais um dos exemplos onde Rian Johnson acertou na temática, mas errou na execução.

 

Luke estava no templo, a noite, dormindo, quando foi acordado por uma forte presença do lado negro, algo tão poderoso que ele nunca havia sentido antes. Estamos falando do homem que enfrentou Vader e Sidious, que quase cedeu para o lado negro ele mesmo, mas conseguiu voltar. Luke conhece bem o lado negro e o que ele sentiu foi algo jamais sentido antes. Ele imediatamente pega seu sabre de luz e sai para investigar, temendo ser um ataque. Ele segue a forte presença e descobre que o lado negro está emanando de Ben Solo, seu único sobrinho. - Essa presença poderosa era Snoke, que já estava dominando a mente do jovem Ben a distância e como Yoda disse em Phantom Menace, "O Lado Negro ofusca tudo". É difícil mesmo para Yoda enxergar além das névoas e das mentiras do lado negro. Naquele momento em que Luke tenta entender o que está acontecendo, Ben acorda e o conflito está armado. A partir daí, duas versões da história são contadas. A de Luke e a de Ben e nenhuma delas representa o que realmente aconteceu. Luke nunca teve a intenção de matar Ben, mas o seu momento de hesitação custou o futuro da ordem Jedi.

 

Outra grande reversão de expectativa que The Last Jedi trouxe, foi a morte de Snoke. Muita gente estava ansiosa para saber mais sobre ele e ficou revoltada com a forma com que ele morreu. Isso tem uma explicação bem simples. Essa não é a história de Snoke. Por mais que você ache que ele era o vilão da história, esse filme é sobre como pais falham com seus filhos, como Luke (figura paterna) falhou com Ben, como Snoke falhou com Kylo e como os pais de Rey falharam com ela. Até o próprio conflito entre Poe e Holdo reflete esse tema. O jovem se rebelando contra o mais velho. Snoke é um personagem  que existe apenas para servir de degrau para a ascenção de Kylo. O objetivo do filme é dar poder a Kylo e não a Snoke. O momento de reversão serve para mostrar que Kylo esta pronto para assumir o poder e esse momento também é espelhado da trilogia clássica. No Episódio VI, Darth Vader se redime e mata o seu mestre, o imperador. Aqui, Kylo mata seu mestre, mas não para se redimir, mas para assumir o poder para si, o mesmo que Anakin queria fazer antes de ser amputado por Obi-Wan. Kylo tomou a decisão que Vader não teve coragem de tomar e fez a Rey a mesma proposta que Vader fez a Luke. "Juntos nós podemos dominar a galáxia". Kylo é a figura central, não Snoke. Se acostume com isso. 

 

Eu sou um que acredita que Snoke QUERIA que Kylo o matasse e o que aconteceu estava exatamente nos planos do Líder Supremo. Em Force Awakens, Snoke diz que é hora de Kylo completar seu treinamento, coisa que muita gente diz que sentiu falta em Last Jedi. A questão, é que a última fase do treinamento de um Sith é justamente matar seu mestre e assumir seu lugar. É assim que eles passam o poder de um pro outro. Sim, eu sei, vocês vão me dizer que Kylo e Snoke não são Siths, da mesma forma que Rey não é uma Jedi. Eu sei, mas é fato que eles sugam seu poder do lado negro da força e é assim que o lado negro se manifesta. Toda vez que você se rende ao ódio, a ganância e a dor, você fica mais poderoso. É por isso que em Force Awakens, Kylo bate em seus ferimentos. Ele sabe que a dor o deixa mais forte. Se você prestar atenção na fala de Snoke pouco antes de morrer, você pode interpretar aquele momento como se Snoke soubesse exatamente o que ia acontecer.

 

Criança Patética. Eu não posso ser traído. Eu não posso ser derrotado. Eu vejo a mente dele, Eu vejo todas as suas intenções. Sim... Eu vejo ele virando o seu sabre de luz para dar o golpe. E agora, sua tola, ele ativa seu sabre e mata seu verdadeiro inimigo"

 

Pra mim é quase certo que Snoke fala dele mesmo. Que esse era o plano desde o princípio. Fazer de Kylo o mais poderoso que ele pudesse ser. Snoke sabia que a morte para ele não representa o fim. Assim como Yoda, ele pode muito bem continuar influenciando Kylo do outro lado, mas o sacrifício dele é imperativo para que Kylo-Ren destranque todo o seu potencial e mergulhe cada vez mais no lado negro. O diretor Rian Johnson teve isso para falar em uma entrevista:

 

"Quando eu estava trabalhando no personagem de Kylo, Eu me encontrei em um lugar onde eu achei que a coisa mais interessante a se fazer era destruir a fundação dele no começo do filme.... No final da história, ele foi de um projeto de Vader para alguém que é dono do próprio destino. Um vilão complexo que assume as rédeas."

 

The Last Jedi está longe de ser um filme perfeito, assim como todos os outros filmes da saga. Nem mesmo a New Hope, um exemplo perfeito e estudado de Jornada do Herói sobrevive a um pente fino. No final das contas, o que nos resta é agradecer o fato de termos um filme de Star Wars por ano e de saber que esses filmes são para o nosso entretenimento, e que tudo isso aconteceu há muito tempo atrás e em uma galáxia muito, muito distante.

 

até a próxima.

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