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Fundamentos de um bom Diálogo.

12.01.2018

 

 

Essa semana, apareceu muita gente com dúvidas sobre diálogos e hoje (post atrasado, desculpem!) eu finalmente consegui sentar para escrever um pouco sobre isso. 

 

Meu livro tem um capítulo sobre isso, e diálogos geralmente são melhores desenvolvidos em um segundo ou até mesmo terceiro tratamento do roteiro. Muita gente engasga na hora de escrever diálogos e com isso acaba perdendo o tesão na história, fica frustrado e acaba desistindo. Quando você está em estado de primeiro tratamento, o importante é colocar a história no papel, de qualquer jeito mesmo. falo isso porque TODO PRIMEIRO TRATAMENTO É UMA MERDA! O meu, o seu, o do Aaron Sorkin... TODOS.

 

Mas vamos aos diálogos.

 

Diálogo é um dos fundamentos do drama segundo Aristóteles. Ele pode determinar o sucesso ou o fracasso da sua história e um roteiro bem escrito com diálogos afiados é uma das melhores experiências de leitura que existe. Eu tenho alguns roteiros favoritos que eu gosto de ler, principalmente quando quero estudar e aprender sobre diálogo. Napoleon Dynamite, Juno, Dogma, Cães de Aluguel, Rede Social, entre outros. Tente se lembrar de um filme cujo diálogo você goste e procure o roteiro online.

 

"Mostre, não conte". Se você estudou cinema em algum momento você ouviu ou leu essa frase e ela é verdade. Essa é a principal regra do cinema. procure contar a sua história de forma visual e evite diálogos expositivos. Eu assino embaixo desse conselho.

 

Tendo dito isso, achar que o filme só está contando UMA história é ter uma visão limitada sobre o potencial do cinema. Existem várias histórias sendo contadas ao mesmo tempo. A imagem conta uma história, os diálogos contam outra, a trilha sonora conta outra. Essa é uma das maiores belezas de um bom filme.

 

Diálogos têm algumas funções, mas duas são principais. REVELAR ALGO SOBRE O PERSONAGEM ou MOVER A HISTÓRIA PARA FRENTE. Mantenha isso sempre em mente a cada linha de diálogo que você escreve e veja se consegue sustentar uma conversa por mais de algumas linhas. Quando você começa a cobrar a função dos seus diálogos, a maior parte cai por terra. No fim das contas você percebe que a maior parte do que vc escreve em diálogo não tem justificativa nem função narrativa. Mas pra chegar nesse estágio, você precisa primeiro saber quais são essas funções.

 

Diálogos também servem construir tensão entre dois personagens. Cada tipo de diálogo tem uma forma específica. Diálogos felizes, diálogos tensos ou dramáticos. Cada um tem um formato diferente e quanto mais você lê determinado gênero, mais você vai captando essas nuances.

Diálogos felizes, aqueles onde todo mundo concorda com todo mundo são chatos e não adicionam nada para a trama. Você precisa de personagens diferentes com objetivos diferentes, e principalmente que PENSAM diferente. É assim que você cria tensão e adiciona CONFLITO. Esse é o ingrediente principal para um bom diálogo. Criar tensão é uma das funções de um bom diálogo. vou dar um exemplo. Vamos olhar duas cenas e ver como cada uma funciona.

 

CENA 1

 

MARIA
Joana foi demitida!

 

JOÃO
Nossa irmã Joana? O que aconteceu?

 

O que esse diálogo nos diz? Que  João e Maria são irmãos e que eles têm outra irmã chamada Joana que acabou de ser demitida. O problema é a FORMA do diálogo.  É puramente EXPOSITIVO e isso deve ser evitado ao máximo! Nunca faça um personagem falar algo que o outro já sabe só pro público saber.

 

Vamos repetir a cena e dessa vez, vamos mudar a forma dessa frase. Vamos procurar uma outra abordagem mas tentando manter a mesma relação entre os personagens.

 

CENA 2

 

MARIA
Joana foi Demitida!

 

JOÃO
Só quero ver a cara da Mamãe quando ela

souber que a lindinha dela foi demitida.

 

Na segunda cena, é possível passar a mesma relação entre os personagens, e ainda conseguimos passar uma outra mensagem: um tom de ciúmes vindo de João, como se ele ressentisse a irmã por achar que ela é a preferida da mãe.

 

Esse é um exemplo simples, pra todo mundo conseguir entender. Uma vez que você entende essas funções, você começa a aplicá-las a diálogos mais complexos. Vamos dar um passo adiante e tentar adicionar mais camadas de conflito a essa cena.

 

CENA 3

 

MARIA
Joana foi demitida!

 

JOÃO
Só quero ver a cara da Mamãe quando

ela souber que a lindinha dela foi demitida.

 

Maria bate com os talheres na mesa, forte o bastante para atrair olhares das mesas em volta.

 

MARIA
Por que você tem que ser desse jeito?

 

JOÃO
Não se faça de sonsa. 

 

A pequena ação entre as falas servem para adicionar mais uma camada ao diálogo. EMOÇÃO. vemos que Maria está com raiva enquanto João está na defensiva. Eles falam em respostas indiretas, porque se você prestar atenção, eles estão falando coisas totalmente diferentes. A diferença entre os personagens fica clara e também descobrimos que eles pensam bem diferentes. Enquanto para Maria é natural se preocupar com os irmãos e ela não entende como João pode ser tão insensível. Para ele, ela é apenas mais uma que não aceita que a irmã não é perfeita. Vemos que João é mais cínico e amargo. Vemos que Maria é mais sensível e família. percebe quanta coisa você pode passar uma vez que você começa a mergulhar na mente dos personagens? Quanto mais tempo você se dedicar a composição dos seus diálogos, melhor.

 

Ritmo. Esse é mais difícil de explicar por escrito, mas vamos lá. Cada personagem dem um ritmo de dicção. Uma menina de 15 anos em São Paulo tem um ritmo de fala muito diferente de um homem de quarenta anos em Pernambuco. De onde ele vem, o que ele pensa, a forma como ele fala, o que ele sente... tudo isso influi no ritmo do discurso de um personagem.

 

Meus roteiros favoritos são aqueles onde eu consigo identificar os diferentes padrões de dicção de cada personagem. Gosto de roteiristas que escrevem da forma como os personagens falam. Gosto de ler as gírias, os sotaques, as pausas.

 

Se um carioca duvida de você, ele pode falar "Não mete essa."
Se um Pernambucano duvidar de você, ele pode falar "Peraê M'n!" (Detalhe para o M'n que é como Pernambucanos abreviam a palavra "menino") Esse tipo de coisa fisga o olhar do leitor e dependendo do seu público alvo, você cria uma conexão imediata. Sempre que eu leio uma gíria ou uma sacada com a qual me identifico, um sorriso brota no meu rosto.

 

Personagens falam com um ritmo próprio. imagine um garoto de 10 anos que tem um amigo chamado Júlio. O moleque chega embaixo do prédi oe grita pra chamar o amigo. como ele grita?

 

- Júúúúúúúúlioo!
ou
- Juliooooooooo!

 

Pode parecer sem importância, mas são esses pequenos detalhes que dão uma voz única aos seus personagens. Um jeito de falar. Veja o ritmo de um baiano falando. agora veja o ritmo de uma gaúcha. Tudo isso pode e deve ser passado para o papel. Veja um exemplo tirado do roteiro de Cidade de Deus, escrito pelo grande Bráulio Mantovani.

 

Chegam ALICATE e MARRECO, de armas na mão. Marreco carrega
também uma CAMISETA VERMELHA.

 

MARRECO
Qualé, cumpádi? O caminhão do gás tá quase
chegando! Tu vai ficá aí de bobó?

 

Cabeleira esboça um leve sorriso, sem perder o controle da bola. Há uma troca de olhares entre Marreco e Busca-Pé: um ar de cumplicidade.

 

ALICATE
Cumé que é, Cabeleira? Num vai dizê que tu
vai negá fogo?

 

Quando o diálogo é bem construído, você consegue imediatamente visualizar o personagem só em ler as falas.

 

E finalmente, procure pensar em como os nossos diálogos do dia a dia funcionam. Não digo para ser realista, digo para entender por que as pessoas falam o que falam. Uma pessoa que tem algo a esconder, ela deflete as perguntas, usa respostas evasivas e procura mudar de assunto. Quando uma pessoa é egocêntrica, ela dá um jeito de se inserir em qualquer assunto e tudo passa a ser sobre ela. Quando uma pessoa está fraca, ela tenta se fingir de forte e quando está fortem tenta se fingir de fraca. Percebe o que quero dizer? Ninguém sai por aí dizendo "Estou triste", "Estou deprimido", "Estou amargurado". Elas transparecem isso através de suas ações e através da FORMA que falam. Uma pessoa em depressão vai negar até a morte, da mesma forma que um político vai negar seus esquemas. Mesmo com todas as provas ele continua dizendo que é inocente.

 

Pra encerrar, peço licença pra deixar aqui um trecho de um dos melhores diálogos que eu já li no papel e como o filme é fiel as palavras. Quando o diálogo é bem escrito, não deixa margem para os atores mudarem nada. Como você é capaz de manter o leitor engajado enquanto nada acontece e quanta informação você consegue absorver. Assistam a cena inicial no youtube e acompanhem o roteiro e percebam como ele faz para captar a essência de cada um no seu padrão de discurso. Senhoras e Senhores, meninos e meninas, com vocês o grande Quentin Tarantino em seu primeiro longa Cães de Aluguel.

 

MR. PINK

Where was I?

 

MR. ORANGE

You said "True Blue" was about a nice girl who finds a

sensitive fella. But "Like a Virgin" was a metaphor for big dicks.

 

MR. PINK

Let me tell ya what "Like a Virgin"'s about. It's about some cooze

who's a regular fuck machine. I mean all the time, morning, day,

night, afternoon, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick,

dick, dick, dick.

 

MR. BLUE

How many dicks was that?

 

MR. WHITE

A lot.

 

MR. PINK

Then one day she meets a John Holmes motherfucker,

and it's like, whoa baby. This mother fucker's like Charles Bronson in "The

Great Escape." He's diggin tunnels. Now she's gettin this serious dick

action, she's feelin something she ain't felt since forever. Pain.

 

JOE

Chew? Toby Chew? No.

 

MR. PINK

It hurts. It hurts her. It shouldn't hurt. Her pussy should be Bubble-Yum

by now. But when this cat fucks her, it hurts. It hurts like the first time. The pain

is reminding a fuck machine what is was like to be a virgin. Hence, "Like a Virgin."

 

The fellas crack up.

 

E você? o que acha? Espero que isso tenha servido para abrir um pouco a sua mente em relação ao quanto é possível alcançar com um bom diálogo.

 

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