ROTEIRISTA

EMPREENDEDOR

Precisamos de Mais Cinemas de Bairro!

13.03.2018

 

ir para o cinema sempre foi um programão descompromissado. você vai andando, pára na calçada, compra a pipoca no pipoqueiro (que é a mais barata e a mais gostosa), conversa ali na calçada, fumando um cigarro, entra, vê o filme e vai embora. Tudo ali pertinho de casa, muitas vezes, a pé.

 

Quando eu era criança, cresci na ilha de Itamaracá, litoral de Pernambuco. Um lugar pequeno e humilde, e que naquela época era ainda menor. Tinha uma sorveteria, uma pizzaria, uma pracinha, uma igreja.... tinha um de quase tudo. Eu tive uma infância de moleque. Ia pra escola a cavalo. Chegava em casa, fazia o dever e ia pra rua brincar. Roubava fruta dos quintais vizinhos, brincava na praia, bolinha de gude, bicicleta... ô tempo bom!

 

Um dia, o mesmo dono da pizzaria, que já era point da cidade (a única) resolveu abrir um cinema. Uma sala simples, com não mais que 60 lugares. Um projetor antigo e um ar condicionado capenga. não era nada de especial, mas era o suficiente. O cinema não fazia parte do circuito comercial. O dono exibia fitas VHS de filmes mais antigos no projetor. não importava. Todas, absolutamente TODAS as seções do cinema eram lotadas. O sucesso era tanto que ele logo teve que contratar mais gente pra cuidar da bilheteria, fazer pipoca, etc. O cinema consumia todo o estoque de refrigerante da pizzaria e tinha época que faltava, de tanto que vendia.

 

Entenda que a gente lá em Itamaracá não tinha nada, então, o cinema capenguinha era a forma que a gente tinha de se divertir, de levar a paquerinha pra comer uma pizza e depois ver um filme. Era o encontro perfeito.

 

Muitas comunidades e muitas cidades do Brasil hoje não têm cinema, e quando têm, é um multiplex de shopping, com preços exorbitantes, todos passando o mesmo filme. Ontem conversando com um casal de amigas, me confessaram que quando saem as duas mais o filho pro cinema gastam em média 150 reais. Um gasto proibitivo pra muitas famílias do Brasil.

 

No Brasil existem hoje cerca de 3 mil salas de cinema. 3 mil salas de cinema para 220 milhões de brasileiros. Pra você ter uma idéia, os EUA têm cerca de 40 mil salas. Há quem diga que o brasileiro tem outras prioridades antes do cinema, mas eu também tinha, o povo de Itamaracá também tinha e nem por isso deixávamos de querer nos divertir.  Todo mundo, por mais humilde que seja, quer uma horinha se divertir e esquecer dos problemas. O problema é que hoje só existem duas opções: ou é bar ou é igreja. O dinheiro da cachaça ou o dízimo que ele paga poderia muito bem pagar uma entrada de cinema pra ele e pra familia, ou pra ele levar a boyzinha. 

 

Cinema no brasil é caro porque tem poucos, e os poucos estão nas mãos de grandes conglomerados internacionais que têm seus próprios interesses. A violência e a falta de segurança são os principais fatores que levaram os cinemas pra dentro dos shoppings no Brasil, seguindo a tendência dos Estados Unidos. Hoje em dia é impossível manter um cinema legal aberto em qualquer lugar sem sofrer com vandalismo, pixações assaltos e arrombamentos. 

 

Precisamos no Brasil Urgentemente de mais cinemas. não só para dar espaço para que nossos filmes obtenham lucro nas bilheterias, mas para levar o cinema para quem ainda não o tem.

 

Mas não se trata apenas de abrir mais salas. Essa é só metade da solução. precisamos de Cinemas Marginais, fora do circuito comercial. Precisamos de cinemas de bairro onde o dono tenha liberdade para criar programações especiais. precisamos da "Semana do Trash", do "Festival Zé do Caixão", da "Semana da Pornochanchada"...precisamos do "Cinema Negro", do "Cinema da Mulher", do "Festival LGBT"... precisamos de todos os tipos de cinema, inclusive o cinema da Globo Filmes e da Record. 

 

Dizem que o povão não gosta de cinema, mas coloca uma tela e umas cadeiras pra ver se o povo não vem. Coloca um cinema a céu aberto, um drive-in de bicicleta ou qualquer coisa do tipo para você ver se a galera não vem. O povo quer cinema, o povo quer teatro. O povo quer ter a opção de lazer também.

 

Conversando com a dona de um "pocket theatre" ela me disse que recebe esse tipo de produção. Em recife temos um cinema de rua que resiste, o São Luiz é do governo, e por isso não pode exibir filmes trash, pornochanchadas, filmes mais "ousados" por questões políticas. Como todo o resto no nosso país, se o governo não tem condições de administrar, a iniciativa privada tem de sobra.

 

A bilheteria do cinema comercial é dividida entre exibidor, distribuidor e produtor, nessa ordem. O exibidor fica só com uma fração da bilheteria. O distribuidor fica com a maior fatia e o resto fica com o produtor. É por isso que pipoca e refrigerante é tão caro no cinema. É assim que eles recuperam o prejuízo. Você não precisa concordar com a prática para entender os motivos.

 

Aí entra  aquele velho e bom conhecimento de empreendedorismo. Além de um espaço amplo, com a segurança adequada, os maiores gastos são de energia elétrica e manutenção. Um bom projetor é claro, e a manutenção do mesmo também. O Ar Condicionado precisa ser potente, que também é caro e gasta bastante energia. Pra calcular o gasto mensal e o arrecadamento é preciso pensar também em alguns outros fatores.

 

Vamos trabalhar com valores fictícios. Digamos que o gasto mensal do cinema de bairro seja 10 mil reais - vai ser mais, mas vamos usar esse número redondo só pra facilitar o raciocínio.

 

Vamos dizer que o cinema comporte 100 pessoas e fora do circuito comercial o ingresso seja 10 reais. Isso significa que a cada seção lotada o cinema leva 1000 reais.

 

Digamos que o cinema de bairro só funcione de quinta a domingo, o que reduz os custos de energia, pessoal e operação. Vamos dizer que o cinema exiba 3 seções por dia. O arrecadamento semanal passa a ser 12 mil, o que já cobre o custo mensal. A cada mês, o cinema de bairro vai arrecadar em média 48 mil reais por mês.

 

os gastos de operação de um cinema envolvem Royalties (se vc quiser exibir dvd's de filmes estrangeiros, por exemplo), energia, pessoal, aluguel, segurança, lanchonete. Dependendo da sua estrutura os gastos podem ser proibitivos. Mas se você conseguir reduzir ao máximo seu custo, você consegue virar lucro no fim do mês.

 

Mas a boa notícia, é que assim como em Itamaracá, muita gente não quer um cineplex. Eles não estão preocupados com o som THX ou com o cinema 3D. Eles querem uma opção de lazer simples e acessível.

 

Um grande e caloroso abraço pra todos os donos e gestores de cineclubes do Brasil. vocês são uma fagulha de esperança no mundo escuro do cinema brasileiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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