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O Mecanismo, Pouca Coisa Por Trás da Polêmica.

27.03.2018

 O ultimo fim de semana foi marcado pela estréia de O mecanismo, série da Netflix sobre a Operação Lava Jato. Produzida por Zé Padilha e com roteiro de Elena Soarez, a série não engata e se limita a gerar polêmica entre os torcedores mais ferrenhos, porém, desaponta os verdadeiros amantes de séries.

 

Quando vi o trailer de O mecanismo recheado de narração em off do Selton Mello, já fiquei desconfiado, mas estava curioso para ver o resultado Padilha é um cineasta competente naquilo que faz e fui assistir a série com a serenidade de quem a enxerga como uma obra de ficção e nada mais. Saí decepcionado.

 

Minha decepção não é pelo mesmo motivo dos geradores de polêmica. Não estou aqui pra falar de política, e sim para analisar um produto audiovisual, que é minha área de especialidade. Deixo a política para os especialistas do facebook.

 

A série me decepcionou logo no primeiro episódio pelo excesso de narração em off. Sei que Padilha é viciado em VO, mas esperava que Elena Soarez fosse capaz de balancear um pouco o lado didático do produtor. Errei feio, errei rude. Elena ABUSA da narração como se a audiência não fosse capaz de entender uma história simplesmente pelo contexto. Teima em dizer o tempo todo o que cada um está pensando e o que cada um está sentindo. Isso pra mim que sou roteirista é um balde de água fria, porque me deixa ciente o tempo todo de que estou assistindo a uma série e atrapalha a imersão. Aliás, a série só engata mesmo nos momentos onde os personagens param de narrar e as coisas acontecem naturalmente, mas logo a roteirista nos lembra de que a narração está ali e define a linguagem da série.

 

Os personagens sofrem daquele vício do cinema nacional de empostar a voz para falar de uma forma que ninguém fala. Parece que eles estão sendo dublados, enunciando cada sílaba, com medo que a audiência não entenda o que está sendo dito. Falhou miseravelmente, pois a mixagem de som da série é péssima. Selton Mello sussurra e me admira que o técnico de som presente tenha dado o OK nas cenas e que o diretor tenha aprovado. Você aumenta o volume ao máximo para tentar entender o que está sendo dito, apenas para a trilha sonora desproporcionalmente alta estourar as caixas da sua TV. Em alguns momentos precisei colocar legendas pra poder entender o que estava sendo dito.

 

Aliás, o personagem do Selton Mello é totalmente descartável e o grande TWIST da série não surpreendeu ninguém. não vou dar spoilers, mas você já deve saber do que eu estou falando. Na tentativa de criar verossimilhança, a série precisa criar personagens desnecessários pra fazer jus a história sem se preocupar com o equilíbrio do elenco. Parece que jogaram o manual de como criar um elenco atraente pela janela e saíram incluindo personagens na série que não tem setup, não tem payoff e não fazem diferença nenhuma. Eles deveriam ter lido O Guia Prático dos Roteiros de TV para ver como criar dinâmicas entre os personagens.

 

A trama poderia ser simplificada. Como obra de ficção, O mecanismo falha. Como obra documental, falha também. O certo seria transformar o clube dos 13 em um único vilão, um amálgama de todos eles. O mesmo vale para os policiais bonzinhos. todos fazendo o trabalho que deveria ser de um só.

 

Lembrei de Prenda-me se for Capaz, filme de Steven Spielberg com Leonardo DiCaprio e Tom Hanks. Naquele filme, Hanks interpreta um agente do FBI que é um amálgama de vários agentes que perseguiram Frank Abagnale durante sua vida e funciona lindamente. Uma das principais lições que aprendemos na escola de cinema é que "menos é mais", o que a galera de O Mecanismo também esqueceu.

 

Henrique Diaz dá um show e é uma canoa de qualidade boiando em um mar de bosta. Ele consegue dar naturalidade ao personagem e criar um verdadeiro canalha que você ama odiar. Selton Mello é competente no papel, mas com um personagem desnecessário, fica difícil até elogiar. A sua atuação de "transtorno bipolar" não convence, ou talvez ele tenha feito o melhor que pode com o roteiro que recebeu. A cena onde ele soca a parede me lembrou do péssimo aborto FEDERAL, aquele filme podre do Eric de Castro, lembra? A melhor coisa da série foi ver o Leandro Ramos, o Julinho da Van do Choque de Cultura fazendo uma pontinha rápida, justamente em uma cena onde o esgoto transbordava do bueiro. Acho que isso foi um sinal.

No fim das contas, O Mecanismo não é tão ruim, nem tão boa, é "meh". A polêmica está elevando a série a um patamar que ela não merece. 

 

 

 

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