ROTEIRISTA

EMPREENDEDOR

Entrevista com a Luísa Parnes Thomson. Roteirista Brasileira e Professora da New York Film Academy.

19.04.2018

 

Luísa foi aluna da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Advogada de formação, roteirista por vocação. Luísa tem uma estrada bem longa no cinema e hoje dá aula de roteiro em uma das grandes escolas de cinema do mundo, a New York Film academy.

 

O Roteirista Empreendedor bateu um papo exclusivo com Luísa, pra falar da sua carreira, das suas influências e do seu longa Antes que Eu me Esqueça, que chega aos cinemas no dia 24 de Maio.

 

Você sempre soube que queria ser roteirista? Como foi que você se "descobriu”?

 

Eu sempre quis ser escritora. No início, quis ser jornalista - era um sonho de criança. Na hora da pressão do vestibular, acabei optando por Direito - não queria ser advogada, necessariamente, mas achava que ia me dar uma boa base de conhecimento que eu poderia explorar na escrita de alguma forma. Claro que não deu certo! Faltando dois anos para me formar, estava arrasada.  Tranquei a faculdade e fui estudar na Inglaterra - queria estudar só coisas que não tinham a ver com o Direito. Um desses cursos foi um curso introdutório de roteiro para cinema. Me apaixonei na hora. Na segunda aula, sabia que queria ser roteirista. Voltei para o Brasil, terminei minha faculdade (e passei na OAB!) e comecei a trabalhar exclusivamente com cinema: trabalhei em alguns sets de assistente de produção/direção e escrevia quando podia.

 

Você rompeu suas próprias fronteiras pra ir estudar fora. Conta um pouco como foi essa decisão e como foi a experiência.

 

Estava me sentindo um pouco restrita no Brasil. Fiz o curso de roteiro da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio. Foi excelente, recomendo muito para quem pode, mas, ao final do curso, quis continuar estudando. Procurei cursos no Brasil, mas não encontrei nada que atendia às minhas demandas específicas. Vi que a NYU oferecia um mestrado em dramaturgia e roteiro cinematográfico, e foquei minha energia nesse mestrado. Apliquei para vários, mas só entrei para o da NYU, que era, justamente, o que eu queria. Coisas do destino! O mestrado foi a melhor decisão profissional da minha vida. Tive que correr muito atrás, os americanos são muito preparados para o ambiente acadêmico, e o nível de talento era muito alto! Mas sair da zona de conforto é a melhor coisa que pode acontecer para um artista - produzi muito e produzi bem nessa época. Meu roteiro tese me abriu várias portas no mundo profissional. Aliás, aqui vale uma dica: a melhor coisa que você pode fazer para a sua carreira, especialmente no início, é ter um portfólio de alto nível. Melhor ter um roteiro excelente do que cinco medíocres, então foque em um ou dois projetos. Demora tempo até o roteiro ficar bom! 

 

 

"Dedicação é o grande diferencial.

talentos, muitos têm."

- Luisa Parnes Thomson

 

 

Além de roteirista, você é professora de roteiro em uma das melhores escolas de cinema do mundo, a New York Film Academy. Como foi o caminho pra chegar até lá?

 

Eu sempre quis dar aula. Comecei dando aulas particulares por skype e peguei gosto pela coisa. Eu fui aluna na NYFA há muitos anos atrás, fiz um curso de 8 semanas antes do mestrado - e mantive contato com meu professor de lá. Depois de uns meses dando aula particular, mandei um email perguntando se ele sabia de vagas para professores. Por acaso, a escola estava contratando. Ele me indicou, e eles me chamaram para uma aula-teste de quinze minutos. Me contrataram naquele dia mesmo. Eu gosto de ver o aluno entrando sem nunca ter ouvido falar em "ponto de virada" e saindo com um roteiro ou um curta do qual ele tenha orgulho.

 

 

Você escreveu o filme “Antes que Eu me Esqueça” dirigido por Tiago Arakilian. O que você pode nos falar sobre esse projeto?

 

Esse projeto chegou para mim na semana que eu me formei do mestrado. Chegou através de um amigo que é produtor e, originalmente, estava produzindo o projeto (o filme mudou de produtora eventualmente). Não tinha dinheiro nenhum, mas me apaixonei pelo projeto logo de cara. Música clássica, ação judicial, prostitutas? Aonde eu assino!?

 

Me ofereceram um contrato bem justo, e eu assinei - o dinheiro dependeria de captação. Em poucos meses, ganhamos nosso primeiro edital de desenvolvimento, e o financiamento do filme começou a fluir. 

 

O Tiago tinha uma idéia central mas me deu muito espaço para criar. Ele queria explorar certos temas, como o envelhecimento da população, e, principalmente, a evolução da sexualidade ao longo dos anos. 

 

Trabalhamos no roteiro por uns cinco anos. Uma vez por ano, mais ou menos, nos encontrávamos, ou em NY ou no Rio (às vezes por Skype) e debatíamos as mudanças. Até que chegou a hora de rodar. O Tiago foi muito fiel ao meu roteiro na hora das filmagens. Uma honra trabalhar com ele!  Infelizmente, não pude acompanhar as gravações, pois minha filha nasceu duas semanas antes do primeiro dia do set. 

 

 

 

 

O que você considera ser seu grande diferencial com roteirista, e seu maior defeito?

 

Acho que meu diferencial vem da minha total e completa determinação a fazer essa carreira acontecer. Eu podia ter seguido a advocacia, mas tomei um risco. Por isso, dediquei minha vida a me tornar roteirista, uma profissão que eu tinha que explicar para as pessoas o que era quando eu decidi seguir. "Então, sabe quando você vê um filme? Alguém escreveu aquelas cenas! Sim, até o diálogo!" Perdi a conta de quantas vezes tive essa conversa. 

 

O meu maior defeito é, com certeza, a ansiedade. Qualquer coisa me afeta -  sofro muito se alguém não responde meu email, ou demora a me dar feedback no material que mandei. Um defeito que eu consegui superar foi ficar muito ligada na trajetória profissional dos outros. Cada caminho é um caminho - segue o teu instinto! O sucesso de um não é o seu fracasso - só quer dizer que têm mais portas para serem abertas.

 

Na sua opinião, o que falta para o mercado brasileiro se industrializar? Você vê isso acontecendo em um futuro próximo?

 

 A primeira coisa é a valorização do roteiro, tanto no processo de produção - dando tempo para o desenvolvimento do roteiro, como acontece nos EUA e Bollywood -  como no financiamento. A falta de ênfase no roteiro fez com que a qualidade do filme brasileiro, por muitos anos, sofresse. Daí o brasileiro parou de ir ver o filme nacional. Para mim, não tem mistério - quer colocar o brasileiro vendo filme brasileiro? Faz filme bom, um atrás do outro. E filme bom começa com o roteiro. É muito importante fazer o espectador brasileiro vencer o preconceito com o filme nacional - cinema é arte mas também é produto, é entretenimento. E, portanto, tem que ser comercialmente viável a longo prazo. Não adianta ter um milhão de leis de incentivo se o produto final não atrair espectador. 

 

Mas, acho que essa melhora do roteiro já vêm acontecendo. Mesmo morando fora, tenho visto, cada vez mais, filmes brasileiros de alta qualidade que não são, necessariamente, a grande comédia (nada contra a grande comédia - só levanto aqui porque, historicamente, estão entre os grandes sucessos de bilheteria do cinema nacional recente). Eu acho que o cinema brasileiro está no caminho certo - mesmo se um pouco atrasado. Estou vendo cineastas mais confiantes em suas próprias vozes, filmes mais autorais, com mais estilo. 

 

 

Quem são suas maiores inspirações e referências no mundo do roteiro/cinema? Por que?

 

 

Em geral, Billy Wilder. Os roteiros dele são perfeitos. Sem gordura, com histórias simples e personagens complexos. O Apartamento é um dos filmes mais bem escritos da história, na minha humilde opinião. 

 

Ultimamente, tenho gostado muito to trabalho da Greta Gerwig, tanto nos trabalhos que ela co-escreveu e atuou junto a Noah Baumbach (Frances Ha, principalmente) e, recentemente, Lady Bird. 

 

Também leio muitos quadrinhos independentes, que me inspiram a pensar fora da caixa e visualmente. Atualmente, gosto muito de Saga, do escritor Brian K. Vaughn e da artista Fiona Staples, e Monstress, da escritora Marjorie Liu e da artista Sana Takeda. 

 

Um filme que lhe chamou atenção pelo roteiro? (não vale dizer o seu )

 

Engraçado, mas os dois últimos filmes que me chamaram a atenção pelos roteiros impecáveis foram dois de terror.  Corra,  de Jordan Peele, que ganhou (merecidamente) o Oscar de melhor roteiro original e Um Lugar Silencioso, roteiro de John Krazinski, Bryan Woods e Scott Beck. 

 

Ambos os filmes usaram o gênero para explorar temas profundos - racismo, no Corra, e os desafios da maternidade/paternidade em "Lugar..." , mas sem abrir mão de roteiros  tecnicamente perfeitos. Em Um Lugar Silencioso, os escritores usam várias técnicas do roteiro de forma perfeita: suspense, storytelling visual, plantas e payoffs, surpresas. O uso de ironia dramática (quando o espectador sabe mais do que o personagem que ele vê na tela) foi perfeito. 

 

Acho que recebe indicação de roteiro nos Oscars do ano que vem!

 

 

Quais os seus planos futuros para a carreira?

 

Quero continuar escrevendo filmes para o mercado brasileiro. O momento é bom e temos muitas histórias para contar. 

 

Paralelamente, estou de mudança para Los Angeles, quero ver se consigo me inserir no mercado (muito competitivo!) de televisão de lá. Sempre quis fazer parte de um writers room - aprende-se muito e ainda recebe-se um bom salário! Sonho. 

 

No momento, estou desenvolvendo alguns projetos, tanto pessoais como para produtoras. Incluem longa-metragens e um projeto de animação para televisão americana. 

 

 

O que você pode falar para todos aqueles que sonham em trilhar esse caminho, mas têm medo?

 

Um clichê verdadeiro: coragem não é falta de medo, coragem é persistir mesmo com medo. Claro que dá medo. Demora tempo, é incerto. Os caminhos são muito diferentes. 

A única coisa que todos eles têm em comum são... roteiros. Ou seja, tem que escrever todo dia. Muitos têm emprego, e não podem largar o emprego para escrever em tempo integral - eu fui essa pessoa por bastante tempo. Requer mais disciplina ainda. Coloque no horário: eu escrevo todo dia de tal hora a tal hora. Não marque compromissos nessas horas, é como se fosse expediente mesmo. Se você respeita, as pessoas respeitam. Mesmo se for uma hora por dia, é algo. 

 

A outra coisa que me perguntam muito é: mas como eu faço para vender meu roteiro? O que vejo acontecendo, com muito mais frequência, é o seu roteiro ser o seu portfólio que vai convencer produtores a te contratarem para escrever um projeto para eles, um projeto encomendado. Mas, de qualquer forma, é importante ter um bom roteiro debaixo do braço.

 

 Ah, uma coisa: primeiro tratamento NUNCA é bom. Repitam comigo: o primeiro tratamento nunca é bom! Não é porque você não escreve bem, é parte do processo. Esse é outro erro que vejo muitos roteiristas cometerem, no início. Escrevem um tratamento,  não revisam, ficam magoados porque o feedback não é muito bom/ninguém quer comprar, e aí jogam o roteiro fora e começam outro. A gente filmou o sétimo tratamento de "Antes Que Eu Me Esqueça". Se sobraram cinco páginas do primeiro tratamento, foi muito. 

 

Dedicação é o grande diferencial - talentos, muitos têm.

 

Palavras de uma verdadeira roteirista com espírito empreendedor. Antes Que Eu Me Esqueça estréia nos cinemas no dia 18 de Maio. Não deixe de conferir.

 

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