O que é mais importante, o discurso ou a história?



Estamos começando mais uma temporada de festivais no Brasil e como todos os anos, a pergunta é: o que vale mais em um filme? o seu discurso, por mais louvável que seja, ou uma história bem contada e bem estruturada?


Esse é um fenômeno que eu vejo em bastante festivais, pois participo de MUITOS. Alguns festivais premiam apenas um discurso. é como se na cabeça do jurado passasse "Mas se eu não premiar esse filme vou ser acusado de racista/machista/homofóbico/nazista...


Você acha que toda arte deve ser panfletária? que o autor deve se posicionar em tudo aquilo que ele escreve? Permita-me não tentar te convencer do contrário, mas apresentar uma outra perspectiva.


Sempre que eu toco nesse assunto, aparece alguém pra dizer que TUDO É POLÍTICA, que todo ato é um posicionamento e nesse post não vai ser diferente. Eu discordo, mas com respeito.


Quando você esfrega sua ideologia na cara do espectador, você não está contando uma história, está panfletando. E o que é pior, está panfletando um panfleto que custou milhares, senão milhões de reais. Não há nada de errado em se posicionar dentro do seu filme, mas isso deve ser feito organicamente, POR BAIXO da história e nunca como o foco principal.


Ano passado participei de um concurso de pitch de séries e sobe ao palco uma roteirista super bem intencionada. apresenta não uma história, mas uma causa que ela defende com unhas e dentes. Quando ela termina, um dos jurados pergunta "mas pra onde vai essa história?" Ela prontamente responde, "Ah, isso a gente tá vendo ainda." Ela tinha todo o discurso para defender a CAUSA mas nada para defender a HISTÓRIA.


Veja filmes como "O dia em que meus pais saíram de férias". Se você pergunta sobre o que é o filme, os mais radicais dirão prontamente que é um filme sobre a ditadura. Outros dirão que é a história de amizade entre um garoto e um velho, e que a ditadura é apenas o pano de fundo para ilustrar os conflitos desses dois personagens.


Você escreveria um filme cujo tema seja contrário as suas idéias? Se a resposta for não, eu tenho uma péssima notícia pra te falar. você não é um roteirista, e sim um ativista. O que dizer de Bernd Eichinger, que escreveu Downfall, "As últimas horas de Hitler"? Era ele um nazista? E Peter Morgan e Jeremy Brock que escreveram o fantástico O Último Rei da Escócia? Eram eles a favor das ditaduras africanas? Nesse mesmo exemplo, são eles culpados por serem brancos e contarem uma história maravilhosa de um país dominado pela violência? Os dois roteiristas foram indicados ao British Independent Film Awards por melhor roteiro. Afinal, julgamos roteiros ou pessoas? Fizeram mal os dois roteiristas brancos ao escreverem uma história que rendeu várias indicações e venceu vários prêmios?


Um filme como Pantera Negra é muito importante e representa muita coisa, mas existe uma história por cima de tudo, a história de um príncipe que não sabe se está pronto para assumir o lugar de seu pai, e de um refugiado que veio clamar seu lugar e desafiar o trono. Todo resto é espetáculo e é justamente aí, no espetáculo que escondemos nossas ideologias e nossas bandeiras, nunca acima da história.


Eu escrevi uma série de animação evangélica, mesmo sendo ateu. Sabe por quê? Porque eu sou bom em contar histórias. meu cliente, estudioso da bíblia não me contratou para escrever pregação, e sim para criar uma animação que seus filhos pudessem assistir e que dentro desse conteúdo houvessem valores que ele considerava importantes para as crianças cristãs. Sabe qual foi a minha posição política ao escrever esses roteiros? A política de escrever a melhor história possível, deixando o meu cliente satisfeito e garantindo que ele vai me chamar para suas próximas produções.


Eu entrei nesse mercado para contar histórias e não para fazer política. Se você enxerga o cinema como "arma social", boa sorte. tem espaço para todo mundo. Eu entrei no cinema para fazer ARTE e ganhar dinheiro com ela, e é exatamente por isso que eu sou capaz de viver da minha profissão hoje. Sou rejeitado por uma parcela radical, que acha que o cinema SÓ PODE ser político e rejeita qualquer coisa que não for. Eu to fora e indico o mesmo para meus alunos. Conte uma história acima de tudo, uma história emocionante, com personagens complexos e conflitos reais e use o seu tema e bandeira como pano de fundo, nunca como protagonista.


Existe espaço para todos os cinemas. Não deixe os extremistas e polarizadores lhe dizerem o contrário. E pra encerrar, tem a questão da ESCRITA INTELIGENTE. se você panfleta o seu filme, você aliena todo o público que não concorda com você. E não adianta dizer "não quero dinheiro deles" porque você mesmo sabe que é mentira. Todo mundo quer viver e merece viver de sua arte. Mas quando você conta uma boa história e coloca sua ideologia por baixo, você não aliena a metade que discorda de você, você a educa, a faz refletir, levanta um debate com todos e não só com a sua bolha.


Bom fim de semana.





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