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Cobra kai e os Dramas de Meia Hora.

20.09.2019

 

O mercado está mudando. O streaming e a internet estão transformando a forma como consumimos conteúdo audiovisual, e como sempre as produtoras precisam se adaptar em seu modelo de produção. Durante a era da TV, Os dramas tinham uma hora, e as comédias, meia hora. O padrão serviu muito, durante muito tempo, mas hoje a era da televisão acabou, estamos oficialmente na era do VOD, video on demand.

 

SPOILERS sobre o episódio piloto de Cobra Kai.

 

Cobra Kai é uma produção original do Youtube Premium que traz uma continuação para o primeiro Karatê Kid, 30 anos depois. A série arrisca em dois sentidos, em focar na visão do antagonista do filme, Johnny Lawrence e em quebrar o paradigma, criando um drama de meia hora. E funcionou.

 

Durante muito tempo, as maiores séries do mercado eram procedurais e por isso, o padrão de drama de uma hora foi adotado. É difícil criar uma trama com peso dramático e personagens com quem o público possa se identificar em pouco tempo de tela. Ao contrário de uma piada, drama precisa de tempo para ser construído.

 

Só que agora, com o fim das grades de programação, dos slots divididos em horas, os criadores estão livres para explorar novos formatos, especialmente um que seja mais amigável com a nova janela de exibição: a internet. Cobra Kai é um drama serializado com dez episódios de 30 minutos.

 

Pra entender como isso funciona, vamos mergulhar em Cobra Kai e como seu roteiro foi construído, e quais as funções que o episódio piloto cumpriu.

 

A série começa com um flashback que traz o conflito central da história, a final do torneio de karatê que mudou a vida dos dois adolescentes para sempre. Daniel saiu vitorioso, enquanto Johnny saiu derrotado.

 

Aliás, Johnny nunca saiu da sua derrota, derrotado é a palavra que define sua vida e isso fica claro nas primeiras cenas. A falta de rotina mostra que ele não tem emprego fixo, e a quantidade de latas e garrafas vazias mostram um problema com álcool. O estado de sua casa também demonstra o estado emocional em que Johnny se encontra. Jogado aos ratos.

 

Ao sair de casa para fazer seus bicos de serviços gerais, ele conhece Miguel, um adolescente franzino que acabou de se mudar para o seu prédio. Johnny não lhe dá atenção e deixa claro. Ele só quer ser deixado sozinho.

 

Johnny faz alguns serviços Gerais, mas alem de não gostar, ele não se importa e isso faz com que ele pregue uma TV na parede errada. Um problema pequeno e fácil de ser resolvido, não fosse a vida de johnny estar indo pelo ralo. Uma resposta mais atravessada e ele perde a fonte do seu sustento e esse, é o Incidente Inicial. Johnny é demitido.

 

Johnny compra um pedaço de pizza em uma loja de conveniência, é confundido com um mendigo e zoado pelo balconista. Ao sair da loja, ele cruza com um grupo de adolescentes que refletem exatamente o que ele era quando jovem, só que dessa vez, Johnny está do outro lado do espelho. Essa cena serve para reforçar o quanto Johnny está fundo em sua espiral de autodestruição, jantando sentado no meio fio, em frente a uma loja de conveniência, como um vagabundo.

 

É quando o grupo de adolescentes resolve implicar com o garoto Miguel, que comprava remédio para sua avó. Johnny se intromete e deixa escapar toda a sua frustração. O karatê ainda está dentro dele e ele libera a cobra cobrindo os baderneiros de porrada. O resultado não poderia ser outro. Johnny é preso e assim acaba o primeiro ato. Isso acontece aos 11 minutos, ou seja, aproximadamente um terço do episódio.

 

No segundo ato, Johnny sai da delegacia, recebe os agradecimentos de Miguel, mas ele ainda não está pronto para mudar. ele quer apenas ser deixado em paz. descobrimos um pouco mais sobre Johnny. sua mãe morreu e ele tem um padrasto com quem não se dá bem. O Padrasto oferece um cheque para que Johnny suma de sua vida, e johnny recusa, afinal, ele não quer mudar, ele só quer voltar a ser como era.

 

o que nos leva a próxima sequência, onde Johnny continua sendo assombrado pela sua derrota no torneio de Karatê. vemos ali que ele perdeu muito mais do que uma competição. ele perdeu a honra, o respeito e a dignidade. Seu devaneio é interrompido por um comercial da loja de Daniel Larusso, e reforça que o sucesso do rival só mostra pra ele o quanto ele é um derrotado.

 

Johnny resolve lidar com o problema da única forma como sabe, bebendo. Ele sai e relembra dos momentos do passado, quando apanhou de um velho na rua, quando teve sua garota roubada e sua vida arrancada dele. Ele vai até o local do torneio, que está fechado, e no auge de sua autoflagelação emocional. Um grupo de patricinhas bate no seu carro. Furioso, Johnny é deixado para trás com o prejuízo e seu carro é rebocado. Quando ele acha que não tem mais como perder, a vida mostra que sempre se pode perder mais. Além de ter o carro rebocado, ele precisa ir buscar justamente em uma das lojas do Larusso. Fim do Ato II.

 

Aliás, o carro de Johnny, um Pontiac Firebird já foi o carro da moda, símbolo de sucesso e ousadia. Assim como Johnny, ele é hoje apenas uma sombra do que já foi, e perdeu completamente o glamour.

 

Terceiro e último ato. Johnny vai até a concessionária para buscar seu carro. Faz de tudo para evitar encontrar Daniel, mas é claro que ele esbarra com seu rival. Percebemos que Daniel é quem é o babaca agora. Ele está por cima, um homem de sucesso, querido, que até hoje se gaba por ter vencido um torneio de karatê há 30 anos. Depois do confronto passivo-agressivo, Johnny sai da loja carregando um bonsai, cortesia de Daniel. Quando o Bonsai cai no chão, representa o momento de transformação na vida de Johnny. O momento onde ele decide deixar de ser um derrotado e fazer alguma coisa.

 

Ele usa o cheque do padrasto para alugar uma loja e reabrir o antigo dojô, trazendo a filosofia Cobra kai para uma nova geração de homens beta que desesperadamente precisa de disciplina e controle. Johnny aceita Miguel como seu pupilo e é através desse garoto que vamos acompanhar a transformação de Johnny.

 

Ao final do piloto, temos o palco armado. Johnny é o novo mestre da Cobra Kai, Miguel é seu primeiro aluno e a partir de hoje, eles vão lutar para superar seus desafios, no estilo Cobra kai. Bata primeiro, bata forte, sem piedade.

 

É possível notar que o roteiro consegue tocar em todos os pontos estruturais em muito pouco tempo e isso só acontece porque tudo é muito preciso. Os diálogos são curtos e eficientes e o pouco que os personagens falam dizem muito sobre eles.

 

Ao final, a série não consegue transformar um antagonista em protagonista, como consegue inverter os papéis e nos mostrar que nós sempre torcemos para o "underdog", só que dessa vez o underdog É Johnny.

 

Se você ainda não viu, assista, e deixe seu comentário. Diga o que achou e os elementos que se destacaram na sua opinião. 

 

Você acha que os dramas de meia hora vieram para ficar?

 

Assista o episódio piloto de Cobra Kai aqui.

 

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