ENTREVISTA COM PAULO CURSINO


Paulo Cursino - Roteirista Brasileiro

Paulo Cursino é um dos roteiristas mais bem sucedidos do mercado brasileiro. Seus filmes fazem parte do catálogo das maiores plataformas de streaming do mundo, e suas séries eternizadas na cultura pop nacional. Entre seus títulos estão "Tudo Bem no Natal que Vem", "Socorro Virei uma Garota", "No Gogó do Paulinho", "De PErnas pro Ar", "A Grande Família" e muito - muito mesmo - mais.


Paulo tirou um tempinho pra conceder essa entrevista EXCLUSIVA para o Roteirista Empreendedor e responder as SUAS perguntas! Vamos entender um pouco da mente e do trabalho de Paulo Cursino na entrevista concedida a Bill Labonia.


1. Os Americanos são conhecidos pelo humor sem graça e puritano. Os ingleses têm o humor sarcástico e adulto. Pra você, qual é a identidade do humor brasileiro?

Eu não vejo assim, eu acho essas definições muito redutoras. O humor americano, por exemplo, é muito variado e até o advento da internet recebíamos nem um décimo do que eles faziam. Na verdade, nós é que comprávamos apenas o humor mais sem graça e puritano deles, não eram eles que não tinham outro tipo de humor. Levar em conta este filtro é importante. Lembremos que nós passamos por vinte anos de ditadura e que muita coisa era filtrada nos anos 70 e início dos anos 80. Apenas os seriados e comediantes mais bem comportados é que chegavam ou faziam sucesso na TV. Daí esta falsa impressão. Veja o recente filme "Meu Nome é Dolemite" da Netflix que conta a história de um comediante negro, do anos 70, que mal chegou a aparecer por aqui, mas que bombou nos cinemas de lá. Era nicho, mas tinha repercussão. Veja os stand-ups do Richard Prior da mesma época que quase sempre batia abaixo da cintura também. Ele ficou rico com isso. Até hoje é assim. Vide o sucesso que o Tyler Perry faz no cinema americano com a personagem Maedea e que mal conhecemos, mal desponta por aqui. Ele é o verdadeiro Paulo Gustavo de lá hoje e pouco se comenta. Enfim, difícil afirmar essas diferenças. Os EUA tem mais cuidado com o que produz sim, mas o mesmo país que tem esse puritanismo também produz coisas hilárias e descaralhadas como South Park ou Family Guy. Como o humor inglês também, é a mesma coisa. Quando pensamos em humor inglês, vem à mente as tiradas do Churchill, da iconoclastia do pessoal do Monty Python, da sofisticação do Richard Curtis. Mas esquecemos dos caras que enfiavam o pé no acelerador como Benny Hill ou Rowan Atkinson com seu Mr. Bean. Ambos popularíssimos por lá e até mundialmente. Neste sentido também é difícil afirmar que o humor brasileiro tenha uma cara própria. O mesmo país que nos deu um Millôr Fernandes e um Max Nunes também trouxe Trapalhões e Paulinho Gogó, todos geniais à sua maneira e na sua praia. Eu nunca acreditei numa "identidade" do humor brasileiro porque nunca acreditei numa identidade única para o Brasil pra nada. Somos um país gigantesco. O humor do nosso Nordeste é diferente do humor do Sul e Sudeste. E mesmo dentro do Sudeste os cariocas riem de forma e coisas diferentes de paulistas e mineiros. Cada região tem sua cara e sua cultura. Não existe uma identidade única. Faz sucesso por aqui quem entender do humor universal. Certa vez conversando com o Juca de Oliveira ele disse que a nossa tradição humorística no cinema vinha do rádio e do circo e que a do americano vinha do vaudeville e do cinema. Então eu o lembrei de uma capa de uma grande revista, acho que da Vanity Fair, em que Jerry Lewis aparecia com nariz de palhaço e se orgulhava de ser um mero clown. Ou seja, a tradição circense americana também é forte, o humor do cinema popular deles também veio de lá. O mesmo com Jacques Tati na França. Então é mais isso: quando se conhece e se estuda a fundo a comédia, é difícil realmente achar essa "cara", essa identidade única. Acabo, no final e sempre, concordando com Chico Anysio que só existem dois tipos de humor: o com graça e o sem graça. O resto é variação sobre o mesmo tema.



2. Você participou das maiores sitcoms da TV brasileira, como Sai de baixo, Sob Nova Direção e A Grande Família. Você já demonstrou ser um grande admirador de uma boa sitcom. Como você enxerga a evolução do formato? Quais são suas referências?

Eu sempre digo que minha geração perdeu várias "golden ages" como a do rock, a do futebol, e a do cinema. Mas nós vivenciamos certamente duas imbatíveis que foram a dos quadrinhos e a da TV. Eu vivi e presenciei um momento muito feliz da nossa cultura, algo totalmente livre, criativo, muito diferente do que há hoje. Eu já conhecia, e bem, as sitcoms americanas dos anos 60 e 70 porque a TV brasileira exibia muito do que se fazia por lá quando eu era garoto. Eu me lembro de ter assistido "I Love Lucy", "Dick Van Dyke Show", "Mary Tyler Moore" e "All in the Family{ , o seriado que inspirou Max Nunes a criar "A Grande Família" na Globo. Mais para a frente fomos invadidos por sitcoms medianas como Supergatas (The Golden Girls), Family Ties (Caras e Caretas), ou Poderoso Benson, entre outros. Sem falar as nacionais como a primeira versão de A Grande Família e coisas esporádicas como Superbronco. Mas com a chegada dos anos noventa e o sucesso de "Cheers" a coisa mudou. A própria TV americana repensou e redescobriu o formato e vieram então séries que já nasceram clássicas como "Friends", "Seinfeld" e "Frasier". Essas séries conseguiam aliar popularidade com sofisticação como nunca antes, a evolução era patente. Claro que não chegaram a isso à toa. Um pouco antes seriados como "Married wiht Children" já havia mostrado para onde a comédia e o humor poderiam ir. Aliás, muita gente não liga as coisas, mas se não houvesse "Married wiht Children" provavelmente jamais teria acontecido de apostarem em um "The Simpsons", para mim o maior de todos. Sempre digo que Os Simpsons são o "Dom Quixote" da cultura americana. Quando a Globo resolveu investir no formato em meados dos anos noventa, graças a uma iniciativa do Mario Lucio Vaz, eu estava começando a escrever profissionalmente, então peguei este início em cheio. Todo autor nesta época tinha uma idéia para um seriado próprio. Acabei emplacando dois, mas depois de muito tempo e minha cabeça já estava totalmente voltada para o cinema. No fundo eu fiz TV porque era o que havia. Quando eu decidi fazer cinema, o Collor destruiu a Embrafilme, então tive que me virar. Eu entrei na Globo para fazer novela, mas nunca curti a onda. Chamavam-me de maluco, porque novela sempre deu muito mais dinheiro, e eu sei fazer melodrama. Mas não adianta: eu curto mesmo é fazer humor. Acabei parando no "Sai de Baixo" e fiquei na comédia.

3. Você é um amante de um bom drink e é possível traçar um paralelo entre as misturas de sabor, texturas e aromas que compõe uma boa bebida, com elementos de gêneros narrativos que compõe um bom filme. Como você gosta de degustar o audiovisual? Você é um purista “on the rocks” ou gosta de misturar coisas diferentes em um coquetel? Pode dar alguns exemplos?

Hahahahaha, vamos dizer que eu sou um tradicionalista nos dois com voos calculados de ousadia. Eu curto uma variação ou outra, mas que não tire o espírito da coisa. Eu não sou purista a ponto de borrifar um vermute extra-seco numa taça para completar o "verdadeiro Dry Martini". Porém não chego ao ponto de colocar um toque de xarope de maçã para deixar "mais leve". Gosto de pequenas quebradas que surpreendam. Como eu sempre digo, mais mole do que fazer o by-the-book, o que está no livro, é jogar o livro fora. O bom roteirista para mim sabe equilibrar as duas coisas. A arte está aí.

4. Você se diverte mais escrevendo sozinho ou em grupo? Como você classifica a diferença entre escrever para cinema e escrever para a TV?

Depende do projeto, mais do que do veículo. Pensar filmes para o cinema é bem diferente da TV e o streaming traz ainda outro desafio. O importante é sempre saber onde será exibido para saber o quanto de silêncio e sons você terá que utilizar. Meus filmes para a TV são mais dialogados do que os que vão direto para o cinema, por exemplo, mas por uma questão de segurança. Necessidade, mesmo, hoje nem há tanto. Só um cuidado. Quanto ao processo de trabalho há filmes que são mais divertidos escrever sozinho e há outros que imploram por uma parceria ou mais colaborações. Gosto de trabalhar de todas as formas. Ultimamente tenho escrito muito sozinho por questões pessoais, sou um pai separado, preciso ficar mais tempo em casa, então acabo escrevendo tudo. Mas quando minha vida estava mais livre, adorava me reunir e rir com uma equipe. Criar humor em grupo é divertidíssmo, faz até bem para a saúde. O que envelhece mesmo é retrabalhar texto. O que a gente se rejuvenesce criando, envelhece reescrevendo. No final acho que dá empate.

5. É o conflito que alimenta as nossas histórias e no ambiente virtual de 2021, conflito está em todas as partes. Como você vê esse ambiente tóxico em que vivemos influenciando as histórias que criamos? O que você acha que vem pela frente no mercado pós-covid?

Nenhuma vida ou momento histórico está livre de conflitos. Viver é ter conflitos, é inescapável. A arte apenas espelha este fato, daí porque nos identificamos e porque as histórias precisam de conflitos. O problema hoje não está nos conflitos, ou seu excesso, mas em como as gerações mais novas lidam com eles. Se um filme entra em conflito com o que penso, eu relevo. A geração atual o ignora. Se um comediante faz uma piada que me ofende, entendo que é uma piada. Os millennials cancelam o comediante. Se um programa de TV bate de frente com as minhas crenças, entendo que é apenas mais um programa de TV. Os mais novos boicotam, pedem cabeças. Acbou que os contadores de histórias, autores, diretores, produtores tem hoje uma obrigação ainda maior de explorar os conflitos como se deve e não se submeter à falta de maturidade geral. Joseph Campbell dizia que "as histórias são ferramentas para a vida". De certo modo hoje temos que dar mais ferramentas para o público lidar com esses conflitos, não apenas concordar com ele ou mimá-lo. Fazer uma novela para dizer que "racismo é crime", "homofobia é feio", "machismo é condenável", é nadar a favor da corrente, é dizer o óbvio, é apenas repetir o que o público já sabe e sempre soube. A arte não existe para ensinar ou doutrinar, a verdadeira arte existe para fazer refletir, e a criação hoje é essencialmente doutrinária e enfadonha por isto. Sinto isto diretamente na pele porque trabalho com humor e não existe humor a favor. Não há como fazer "comédia construtiva". Ou a comédia bate, ofende, ou ela se torna inofensiva em seu pior sentido. Se o atuor não peitar esse estado de coisas, se não incomodar, se não mostrar conflitos reais, cada vez mais o público começará a acreditar nos inventados. Eu vejo o ambiente tóxico de hoje como um cenário de terra arrasada, mas também uma oportunidade de começar do zero, de refazer um beabá para as novas gerações. Pode não ser tão divertido, mas é necessário. O covid e a pandemia, na verdade, apenas aceleraram um processo, pioraram o que já vinha muito ruim. O mundo já vinha doente há tempos. Terá que haver uma reconstrução geral após tudo isso e somente quem tiver preparo e maturidade conseguirá definir o que deve ser feito. Não contemos com millennials. Não sei como será o mundo pós-covid. Se será mais ou menos feliz, se será pior ou melhor que o de hoje, mais rico ou mais pobre, mais saudável ou doente. Só sei que teremos muito trabalho pela frente.


Tyler Perry - Medea

6. Lívia Sudare pergunta: O escritor de comédia precisa ser engraçado fora do papel?

Se eu dependesse disso estava ferrado. A maioria estaria, na verdade. Acho que a maioria só começa a escrever humor porque não sabe fazer fora. Se eu fosse engraçado talvez estivesse na frente das câmeras, não atrás delas. Não existe muita regra para isso. Se eu fosse apostar em uma eu diria que o escritor de comédia tem que ser bem humorado. Antes de fazer rir a pessoa tem que saber rir. Mais ou menos como quem joga bola tem que ao menos gostar de futebol. Claro que já conheci escritores de comédia muito mau humorados, Robertinho Silveira era um resmungão de marca maior, Chico Anysio era azedo na maior parte do tempo, mas ambos eram hilários escrevendo ou atuando. Porém, se você não for um gênio, o autor de comédia tem que ao menos saber ou gostar de rir. Parece algo óbvio, mas tem gente que não gosta. Certa vez trabalhei com uma autora em um programa de humor que não ria de nada, de piada nenhuma, de ninguém. Eu era chefe da equipe e uma vez a questionei por isto. Ela disse que não via graça mesmo nas coisas que a maioria dali escrevia, que era difícil rir de qualquer coisa. O toque que eu dei a ela era para que tomasse cuidado com aquilo. O excesso de seriedade, antes de demonstrar alguma sofisticação, pode passar por arrogância ou falta de generosidade. Dentro de uma equipe, aquela postura pode travar o outro, e isso é péssimo. Não é preciso rir de qualquer coisa, mas não rir de nada demonstrar uma falta de abertura mínima, de generosidade mínima com o próximo ou de identificação com o que faz. Em outras palavras: ela estava no lugar errado. Ela saiu, foi para um programa policial e se deu bem.

7. Mattias pergunta: Como ser um Roterista de sucesso e como vencer a procrastinação?

Sinto dizer, mas você só será um roteirista de sucesso se vencer a procrastinação. Nada atrapalha mais a produtividade ou a vida de um autor do que procrastinar. Eu tenho uma pequena regra de ouro que sigo à risca: eu preciso escrever no mínimo cinquenta linhas por dia. Seja o que for, preciso escrever. Eu chamo isto de "procrastinação produtiva". Já travei como qualquer outro autor, claro, mas não fico parado viajando na internet, sempre parto para produzir outra coisa. Às vezes pode ser um post de Facebook, ou respondendo a uma entrevista como essa, ou mexo em algum conto, texto antigo, ou vou para outro roteiro, abro um terceiro, mas ficar sem escrever ou criar, quase nunca. E quando não consigo escrever - quando viajo, por exemplo - vou no sentido contrário e leio o máximo que eu puder. Pego um romance curto e mato-o durante um voo de avião, por exemplo. A única coisa que devemos evitar nessas horas é o audiovisual. Ver filmes e seriados atrapalham mais do que ajudam, maratonar vicia. Devem ser vistos, claro, mas são distrações maiores e entram na conta da procrastinação improdutiva, digamos assim. Eu só vejo filmes e seriados em horário de descanso. Se estou no trabalho, nunca.

8. Matheus de Oliveira pergunta: O que um roteirista novato precisa fazer, em primeiro lugar?


Ler muito. Ler estimula mais a imaginação do que ver filmes, jogar games, maratonar seriados. Você só terá uma linguagem própria e encontrará seu espaço no mercado se tiver preparo e imaginação própria. Hoje todo mundo vê as mesmas coisas, tem acesso a tudo, as pessoas vêem de tudo, então quase todo mundo sabe contar o que já viu e o que já foi visto. Difícil é trazer algo novo e este algo novo virá só de você. Para alimentar sua criatividade, não há nada melhor do que a leitura.


9. Erick xtr pergunta: É fundamental estar no eixo Rio-São Paulo para se desenvolver em termos de CARREIRA?

Isto era verdade até quinze anos atrás. Hoje é indiferente. Claro que estar próximo dos maiores mercados ajuda na questão política, de estar próximo das pessoas, de ganhar confiança, mas hoje o mercado está tão lotado, com tanta gente fazendo isto, que nem este diferencial existe mais. Sem contar que produzir hoje é muito barato. Você tem uma câmera 4K no celular, você tem um canal de veiculação em qualquer site, então pra que se concentrar em um eixo? Sem falar que para um autor dá para trabalhar de casa. Eu poderia morar em qualquer lugar do mundo e mandar tudo de lá. Só não faço porque minha filha estuda e tem família no Rio, mas já estaria longe do Rio e de São Paulo se pudesse. Não faz diferença. Talvez faça um pouco para quem está começando, mas acho que nem isso mais. Se você tiver um bom computador, uma boa câmera, e uma boa internet, o fundamental é produzir. O lugar pouco importa.

10. Várias pessoas perguntaram: Qual o segredo para escrever comédia?

Não há muito segredo. Acho que tudo está na forma com a qual você observa e encara o mundo. O humor é um estado de espírito, exige uma argúcia que nem todos tem, mas que muitos podem praticar. Talvez um dos segredos esteja em saber dosar humor e dor. Você pode enxergar um escorregão numa casca de banana tanto como uma tragédia ou como uma comédia. Depende de você. Afinal, escorregões podem matar alguém. Mas também são hilários. E então? Como você enxerga isso? Ou melhor: como se faz para rir disso, da dor alheia? Pode soar como insensibilidade, mas é apenas distanciamento. Quando você faz um personagem ofendendo outro, isso pode ser muito engraçado, mas prepare-se para ser criticado por isto. Fazer comédia exige desprendimento e coragem, MUITA coragem. Toda comédia tem uma tragédia em seu cerne. Woody Allen foi muito certeiro ao dizer que a comédia é "tragédia+tempo". Eu costumo dizer que nada é mais trágico do que quem se leva a sério. E nada é mais engraçado do que rir de quem se leva ainda mais a sério. Acho que o maior segredo é entender que o ser humano é naturalmente ridículo e que ninguém escapa disso. Ria de si mesmo, com sinceridade, antes de rir dos outros. Comece por aí.

O MELHOR PONTO DE PARTIDA

PARA NOVOS ROTEIRISTAS

fd11_Banner_220x220.jpg